sábado, 25 de fevereiro de 2012

a festa dos Cão

tribuna do norte


A 21 de fevereiro - na terça-feira, gorda! - completei mais uma volta em torno do sol, dois terços do número de voltas que o bloco carnavalesco Os Cão, 75 anos, que toda terça de Carnaval sai na Redinha, em Natal, no mangue do rio Potengi se enlameando e enlameando a quem se aproxima. Claro que depois todo mundo se lava direitinho, e eu, que sou uma pessoa educada, me ofereço pra dar uma mãozinha,

Para lá também se encaminham instrumentistas e musicistas generosas, pra animar e embelezar a festa dos Cão.

absaam


CARNAVAL - A FESTA DOS CÃO

Terça-feira eu vi os Cão.
Fiquei muito satisfeito!
Era pura diversão.
Todo Cão é bom sujeito.

Se sujam de lama os Cão,
todo mundo sujo fica.
Gosto de passar a mão,
banda de menina rica.

Quem sabe faz o serviço
- Elas gostam muito disso...
também de tocar corneta.

Os Cão saem no Carnaval.
ninguém ali faz por mal:
seja doidona ou careta...

Suja pau, chuta buceta.


Antônio Adriano de Medeiros

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

narcissuicida


Seriam duas pessoas muito chatas, mas não posso negar que são dois poemas bastante interessantes. Se bem que incomodam, sabem irritar.

É difícil dizer qual o humor do Pintor do Suicídio. Acabo ficando com o depressivo-irritado. Ele reclama da falta de inspiração para pintar, e de repente começa a pintar seu próprio suicídio, crendo certamente que a tal falta de inspiração seria definitiva e seria então a hora de pintar seu último quadro. Mas o que mais chama a atenção, a meu ver´é que se trata de um suicídio agressivo - não dá pra ter peninha, dó, desse suicida aí, antes raiva. O fato de ser tão claramente um suicídio heterodoxo nos mostra uma faceta estranha do suicídio, a saber, que háa li sempre algum grau de agressão para os que ficam, no sentido de que o que se mata pelas próprias mãos parece nos dizer "olhem o que eu faço com essa vidinha que vocês valorizam e prezam tanto!" E ele acaba agredindo a própria gramática ´"que cor terá minha tez quando encontrado?" - Nessa frase, o eu, apesar de oculto, é tão grande que domina a concordãncia verbal. Na verdad, foicaria feio reduzir o copro à mera cor da pele, de forma que preferi a concordância com o corpo inteiro; vale pelas duas coisas.

Já a outra personalidade narcísica, a que se revela com o nome verdadeiro, Narciso - sim, porque o Pintor do Suicídio também era um narcisista - me fez rir pra danado. Antes que alguém me pergunte já vou dizendo que nada de autobiográfico tem ali. Nem poderia haver. Pura ficção livre!

absaam



O PINTOR DO SUCÍDIO

Às vezes fico assim por muito tempo.
Nem um risco de poema cruza
essa névoa no mundo,
esse silêncio profundo,
esse céu cinzento.

Nem meu cadáver dependurado
pareceria ter qualquer graça.

- Que cor terá minha tez quando encontrado?
Que expressão dissimulará meu rosto?
Discreta baba escorrendo pela boca
à guisa de cuspe ou vômito,
na tua cara?


Antônio Adriano de Medeiros



NARCISO

Como todos são tão ridículos, limitados...
Desde menino que me sei genial!
Por isso desanco a todos, micos e nanicos, palhaços,
e nem temo as conseqüências:
já tenho a notoriedade desejada.

Alguém duvida de que serei poeta póstumo?

Reprovei os três sábios da Academia,
o judeuzinho, o macaquinho, o maçonzinho,
porque eles não mais serão que simples médicos:
não precisava deles.

Recusei ajuda do poderoso bufante,
o farsante coronel da política,
só pra mostrar que há algo maior que o poder:
sou mais sábio que ele.

Esculhambei com os macacos na noite escura
quando quiseram me amedrontar
com suas armas ridículas
e suas gargalhadas peculiares a banguelas medíocres:
sou mais homem do que eles.

Desprezei aquela a quem, confesso, até amara,
por um mínimo sinal de orgulho de menina mimada,
um escorregão que espatifou a perfeição,
um deslize que fez a bela apodrecer:
sou mais bonito que ela.

Não gostou do que leu, prezado leitor?
Que importa?
Escrevo melhor que você.


- Meu nome é Narciso!



Antônio Adriano de Medeiros

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

as confissões do pastor Lobo


O padre Lobo, pastor e lobo a um só tempo, é um dos Doidos de Mim mais bem trabalhados. Ganha, inclusive, uma epígrafe de Baudelaire, retirada das Litanias de Satã, "Ó Satã, tem piedade de minha longa miséria!", pois segui o modelo daquele poema para escrever As Confissões, incluindo também uma anáfora.

absaam



AS CONFISSÕES DO PADRE LOBO



"O Satan, prends pitié de ma longue misère!"



Ó Pai, juiz em quem misericórdia se iguala a justiça,
perdoa um padre em quem o pecado viça!

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Há muitos anos os dentes eu arreganho
para investir contra o meu próprio rebanho.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Foi com um beijo que pela primeira vez
traí a castidade com a nossa irmã Inês.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Eu me arrependo das inúmeras manhãs
em que despido despertei com as irmãs.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Eu sou aquele que antes do matrimônio
desfruta da noiva por artes do vil Demônio.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Perdi a conta das muitas ocasiões
em que beatas bolinei nas procissões.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Hoje eu confesso que abusei de crianças
sentadas em meu colo com suas douradas tranças.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Sempre ao final das festas de padroeira
trinta dinheiros desvio na roubalheira.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Censuro sempre o adultério da pobreza,
mas o pratico com as damas da nobreza.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Quantas donzelas já levei ao descaminho,
unindo o sagrado pão com o mais raro dos vinhos!

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Nunca pecado vejo nos vis corações
se à paróquia fazem boas doações.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Com excomunhão ameacei ricos e carentes,
para passar a noite com as filhas adolescentes.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Jurei pobreza e que jamais teria um porto,
mas vivo em luxo, no ócio e no conforto.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Se nos sermões louvo a pureza de Maria,
a mães ensino segredos de putaria.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Beijando Cristos de cabeças cabeludas
senti no peito pulsar coração de Judas.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Ao acender velas em sagrados castiçais,
intimamente fiz preces a Satanás.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Quando fazia meu juramento de fé,
as gargalhadas eu ouvi de Lúcifer.

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!

Perdoa, Pai, este infeliz padre ateu:
entre os irmãos, há bem piores que eu!

- Ó Senhor, tem piedade de um pastor que é lobo!


Antônio Adriano de Medeiros

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

caboclo brabo


CABOCLO BRABO

Às vezes de repente eis que baixa o cabôco.
E ele canta e dança e batuca, assovia.
É um bicho esquisito e talvez meio louco
- Só não vá lhe dizer que ele faz poesia!
Porque aí já periga de você levar soco,
que o cabôco se enfeza e vai pra baixaria.
- É parente de Exu, o velho arranca-toco:
baixa santo e enterra à plena luz do dia!
O seu canto é selvagem, é canto de guerreiro,
de pajé, pai-de-santo ou véi catimbozeiro.
Eu só sei que poesia o índio nunca faz,
e se zanga, e quer briga e vira o Satanás:
pois o índio é assim, um cabôco enfezado...
E poesia pra ele é coisa de viado!

Antônio Adriano de Medeiros

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Doidos de Mim - os safados, com Baudelaire

Safo de Lesbos

Nos dois Doidos de Mim que seguem, encarno - na primeira pessoa do singular! - os primeiros Safados; a saber, os desviados originais, os humanos do amor entre iguais.


A poeta Safo de Lesbos (Sapho da ilha de Lesbos) se não foi a primeira que cantou o amor entre as muheres foi a que o fez melhor, pois que o nome da ilha onde viveu deu origem à palavra "lésbicas". Creio que também a palavras "safadeza" e "safada" se originaram de seu próprio nome, se bem que diziam-na tão encantadora que poderia mesmo ser citada como a Décima Musa; há que se dizer ainda que Safo se matou atirando-se de um penhasco de sua ilha no grande mar, e que o fez por amor a um homem! - o Poeta Charles Baudelaire fala do episódio em um dos poemas mais belos que conheço, Lesbos, que não posso deixar de incluir aqui, como terceiro poema da presente postagem, na tradução de Ivan Junqueira. O poema de Baudelaire foi proibido quando da publicação das Flores do Mal, junto com mais cinco, e ele pagou alta multa pro ter, segundo a justiça francesa da época, "atentado contra a moral e os bons costumes". Somente sessenta anos depois os poemas foram "reabilitados" em França - o que não quer dizer que não fossem publicados em ediçôes clandestinas. No poema Sáphira há pois uma pequena homenagem a Safo de Lesbos.

Nijinsky foi um grande bailarino russo que teve um caso conturbado com Dhiaghilev, seu empresário; o mais tocante da história de Nijinsky foi que ele, o maior bailarino de sua época, após ter passado alguns anos inativo, coisa de briga com Dhiaghilev e certamente outros problemas mais graves, marcou o seu retorno triunfal ao palco e, diante da nata européia da época o bailarino, após ficar cerca de uma hora sentado numa cadeira no palco, calado e de olhar fixo, dá uns pinotes desajeitados sobre uma cruz que fizera no palco diante do público, e simplesmente não conseguiu dançar, adoecendo de uma psicose esquizofrênica que nem Freud, Bleuler e Jung conseguiram fazer sequer melhorar dos sintomas graves. Li outro dia que quando Nijinsky saía de casa na fatídica noite dissera á sua mulher que "hoje você vai assistir ao meu casamento com Deus!" Um fenomenologista que estudou a grande psicose diz que nos primórdios do delírio primário se sente a Trema, nome dado à grande ansiedade que os atores sentem antes de entrar no palco - a trema de Nijinsky, então, foi definitiva. Outro homossexual que dizem-no tão belo que poderia ser "o modelo masculino da beleza plastica" foi Antínoo, protegido do imperador romano Adriano. O poema Antínoo Nijinsky funde trechos da história dos dois.

E por fim segue o poema de Charles Baudelaire, Lesbos, na tradução de Ivan Junqueira.

"Car Lesbos entre tous m'a choisi sur la terre
Pour chanter le secret de ses vierges en fleurs,
Et je fus dès l'enfance admis au noir mystère
Des rires effrénés mêlés aux sombres pleurs ;
Car Lesbos entre tous m'a choisi sur la terre."

Baudelaire, Lesbos
(http://clicnet.swarthmore.edu/litterature/classique/baudelaire/lesbos.html)

absaam



SÁPHIRA

É no oceano azul e quente de teus olhos,
amiga, que quero me afogar.
É com essa espuma salgada de teu corpo,
amada, que quero me embriagar.

Ao escalar tuas montanhas maleáveis, amor,
me perco fundo no teu pântano, e aí viro fera - e mordo!
Nessa selva de cabelos perfumados, em desatino
quero me perder, para reencontrar-me guerreira
amazona que te monta e espora.

As tuas duas grandes maçãs
são as frutas prediletas de meus dentes.

E quando perderes tu também a cabeça
na minha árvore do bem e do mal,
entraremos juntas no Paraíso,
enroscadas quais duas serpentes.


Antônio Adriano de Medeiros



ANTÍNOO NIJINSKY

Pois saiba que eu também gosto muito, amigo,
quando me tomas nos braços e diriges meus movimentos
como se fora um ator no palco,
ou um bailarino,
e me beijando dizes que sou teu
modelo de beleza plástica,
além do depositário não só de teus afetos.

No início, confesso,
me preocupava
com o que os outros iam pensar
quando saíamos para jantar,
você bem mais velho e tão alvo,
e eu tão jovem e com minha pele por demais morena;
hoje não, confesso que já me sinto à vontade.

Pois nada se iguala aos momentos
que vivemos a sós,
no nosso palco de amor,
quando danço rubro e com a voz embargada,
molhado de saliva e suor,
te amando e servindo e venerando - meu Imperador! -
o coração palpitando sob tua espada.


Antônio Adriano de Medeiros




LESBOS

Charles Baudelaire

Mãe dos jogos do Lácio e das gregas orgias,
Lesbos, ilha onde os beijos, meigos e ditosos,
Ardentes como os sóis, frescos quais melancias,
Emolduram as noites e os dias gloriosos;
Mãe dos jogos do Lácio e das gregas orgias;

Lesbos, ilha onde os beijos são como as cascatas,
Que desabam sem medo em pélagos profundos,
E correm, soluçando, em maio às colunatas,
Secretos e febris, copiosos e infecundos,
Lesbos, ilha onde os beijos são como as cascatas!

Lesbos, onde as Frinéias uma à outra esperam,
Onde jamais ficou sem eco um só queixume,
Tal como Pafos as estrelas te veneram,
E Safo a Vênus , com razão, inspira ciúme!
Lesbos, onde as Frinéias uma à outra esperam,

Lesbos, terra das quentes noites voluptuosas,
Onde, diante do espelho, ó volúpia maldita!
Donzelas de ermo olhar, dos corpos amorosas,
Roçam de leve o tenro pomo que as excita;
Lesbos, terra das quentes noites voluptuosas,

Deixa o velho Platão franzir seu olho sério;
Consegues teu perdão dos beijos incontáveis,
Soberana sensual de um doce e nobre império,
Cujos requintes serão sempre inesgotáveis.
Deixa o velho Platão franzir seu olho sério.

Arrancas teu perdão ao martírio infinito,
Imposto sem descanso aos corações sedentos,
Que atrai, longe de nós, o sorriso bendito
Vagamente entrevisto em outros firmamentos!
Arrancas teu perdão ao martírio infinito!

Que Deus, ó Lesbos, teu juiz ousara ser?
Ou condenar-te a fronte exausta de extravios,
Se nenhum deles o dilúvio pôde ver
Das lágrimas que ao mar lançaram os teus rios?
Que Deus, ó Lesbos, teu juiz ousara ser?

De que valem as leis do que é justo ou injusto?
Virgens de alma sutil, do Egeu orgulho eterno,
O vosso credo, assim como os demais, é augusto,
E o amor rirá tanto do Céu quanto do Inferno!
De que valem as leis do que é justo ou injusto?

Pois Lesbos me escolheu entre todos no mundo
Para cantar de tais donzelas os encantos,
E cedo eu me iniciei no mistério profundo
Dos risos dissolutos e dos turvos prantos;
Pois Lesbos me escolheu entre todos no mundo.

E desde então do alto da Lêucade eu vigio,
Qual sentinela de olho atento e indagador,
Que espreita sem cessar barco, escuna ou navio,
Cujas formas ao longe o azul faz supor;
E desde então do alto da Lêucade eu vigio

Para saber se a onda do mar é meiga e boa,
E entre os soluços, retinindo no rochedo,
Enfim trará de volta a Lesbos, que perdoa,
O cadáver de Safo, a que partiu tão cedo,
Para saber se a onda do mar é meiga e boa!

Desta Safo viril, que foi amante e poeta,
Mais bela do que Vênus pelas tristes cores!
- O olho do azul sucumbe ao olho que marcheta
O círculo de treva estriado pelas dores
Desta Safo viril, que foi amante e poeta!

- Mais bela do que Vênus sobre o mundo erguida,
A derramar os dons da paz de que partilha
E a flama de uma idade em áurea luz tecida
No velho Oceano pasmo aos pés de sua filha;
Mais bela do que Vênus sobre o mundo erguida!

- De Safo que morreu ao blasfemar um dia,
Quando, trocando o rito e o culto por luxúria,
Seu belo corpo ofereceu como iguaria
A um bruto cujo orgulho atormentou a injúria
Daquela que morreu ao blasfemar um dia.

E desde então Lesbos em pranto lamenta,
E, embora o mundo lhe consagre honras e ofertas,
Se embriaga toda noite aos uivos da tormenta
Que lançam para os céus suas praias desertas!
E desde então Lesbos em pranto lamenta


Charles Baudelaire
Flores do Mal
trad. Ivan Junqueira

domingo, 12 de fevereiro de 2012

outros Doidos de Mim



Os escritos da série Doidos de Mim permitem-me encarnar certas personalidades incomuns, sempre na primeira pessoa do singular, oferecendo já no título um nome com características de diagnóstico e de cartão de apresentação. Aqui vão dois comedores de gente, mas de gente... morta! Um canibal e um necrófilo, companhias decerto não muito recomendáveis. Há porém o fato de que outros Doidos de Mim já se apresentaram no blogue, entre eles Hansen, O Barão de Momoicó, e A Bela Parricida.

É impossível falar como canibal e ser lírico, parece. Precisa-se de muita cautela pra se defender o indefensável, e K. Anibal não pôde usar nem um pouquinho de lirismo a não ser talvez na mençao à tonalidade triste das sonatas que ouviu enquanto jantava um casal de amigos algo a contragosto. Já o necrófilo Zé dos Caixões esbanja lirismo ao descrever suas abomináveis paixão e aventuras.

Interessante que na prática é o contrário: o canibalismo pode até ser defensável em situações extremas (lembrar o acidente dos Andes, e o mais recente, o da mina do chile, quando tudo já estava preparado...) mas a necrofilia, jamais. Confesso porém que fui influenciado por Alice Cooper pra poder ser tão lírico na necrofilia. A música é I love the dead.

Lembro de quando o Prof. Leme Lopes fez uma palestra no anfiteatro que já tinha seu nome, quando a homossexualidade perdeu a condição de entidade nosológica pura, acho que em 1986: ele lembrou que nem todas as chamadas perversões sexuais poderiam ser porém encaradas com vistas grossas (alguns mais empolgados já proclamavam o liberou geral) a necrofilia seria sempre sinal patognomônico de grave transtorno mental; ela é um extremo, um marco - e sempre é bom lembrar que existem marcos.

E não pense a leitora estar livre da obrigação de usar um crachá que a identifique psiquiátrica ou psicopatologicamente: o diagnóstico em cinco eixos da Associação Psiquiátrica Americana bem pode num futuro perverso ser transformado num crachazinho obrigatório onde a pessoa deve ser identificada quanto a seus rendimentos práticos levando-se em conta suas características psíquicas;

Mas por enquanto os diagnósticos verdaddeiros são usados apenas para permitir a melhor maneira de a Medicina ajudar alguém. Essa é a idéia, imorredoura, creio.

absaam




K. ANIBAL

- A parte mais chata ainda é que fim dar aos ossos,
sempre muitos e delatores demais a olhares circunspectos:
o abate da presa até torna-se fácil com o tempo.

No preparo, devem-se seguir os mesmos cuidados,
empregarem-se os mesmos molhos e temperos
da culinária das pessoas comuns:
um bom vinagrete sempre cai bem com churrasco;
certos grelhados sempre combinam com alho e pimenta,
e arroz e legumes são os acompanhamentos universais.

Só nunca revele o prato que está servindo aos convidados:
certa vez um casal de amigos não reagiu bem
ao saber que jantara um desafeto, e entrou em pânico,
e logo os vi muito falantes e desconfiados e perigosos,
sendo que tive que também jantá-los nos dias seguintes;
nunca um piano tocara tão triste aquelas sonatas!...
nunca o vermelho do vinho me dera calafrios em vez de calor.

Por isso nunca pergunte:
admiras porventura a carne humana?

E não se recomenda a sopa com ossos, aqueles delatores.


Antônio Adriano de Medeiros





ZÉ DOS CAIXÔES

- Quem sabe de todo o ardor,
do tamanho prazer que fica no frio túmulo
quando a dor da família volta pra casa chorando?
Quem fará companhia à linda jovem recém-chegada
naquela primeira noite em que a bela vai dormir
- Ai, ainda com todos os cabelos! - na casa dos mortos?

- Tu a abraçarias assim como eu, amigo leitor?

Quem sabe da beleza que não se desmancha
assim tão de repente como cessa o calafrio,
o tremor, esse calor, esse soprar que se chama vida?
Quem ainda a julga fonte de paixão,
digna de companhia apesar da tamanha frieza?
Em quem a paixão acende ainda aquele olhar tão opaco?

- Tu a amarias assim como eu, dileto leitor?

Quem ainda uma noite a despiria, na vizinhança
de tantos esqueletos curiosos e tão perscrutadores?
Quem dançaria com ela uma valsa ao luar?
Quem deliraria de prazer ainda uma noite
na companhia de dama tão insensível?
Quem ousaria desnudar a rosa fria?

- Tu a beijarias assim como eu, recatado leitor?


Antônio Adriano de Medeiros

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

os conselhos de Satã

A tentação de Cristo - Botticelli


Acredito piamente que quem conseguir ler o cordel abaixo desprovido de preconceitos religiosos verá nele um grande poema. Porque a situação criada é plausível, os argumentos são muito bem elaborados, e, do ponto de vista materialista mesmo para uma pessoa do senso comum, o protagonista poderia estar com a razão. Além disso trata-se de um cordel em septilhas com a pegada da deixa, essa coisa de se começar uma estrofe sempre rimando primeiro verso com o último da estrofe precedente. E há ainda o fato de ser abordado aí uma das passagens mais conhecidas da literatura ocidental, a saber, a Tentação de Cristo, quando Jesus cumpre o rito de passagem de ser testado quanto à magia, ao orgulho e à fidelidade.

O homem que viu a criatura havia por três meses ingerido bebida de alto teor alcooólico, cachaça, diariamente até o coma alcoólico, e de repente para a ingesta; é natural pois que sofra a síndrome de abstinência com delírio, o chamado Delirium tremens, que é, apesar da duração de cerca de uma semana, uma das "formas de loucura" mais assustadoras que existem, para quem a vê: a pessoa sua intensamente, tem tremores notáveis e inclusive pode ter convulsões (casos mais crónicos), e acusa visões aterrorizantes, julgando que está sendo perseguida, ameaçada, e querem destruí-la fisicamente; as visões, que se movem e se expressam através da voz humana, variam de acordo com o nível cultural da pessoa, mas geralmente incluem bichos e seres monstruosos, sendo basntante comum a presença do Sr. Diabo. Tais bichos ou monstros ou seres mitológicos (um europeu que pude acompanhar era acossado por sátiros e centauros) podem ser diminutos ou gigantescos, e inclusive alternarem o tamanho; o Diabo mais comum é preto e tem os olhos vermelhos, e é meio pigmeu, pelo menos onde pude conhecê-lo, isto é, saber de sua aparência, na Grande Natal e cidades da redondeza num raio de mais ou menos 100Km.

Mr. Devil quando se apresenta no cordel é um monstro pequenino mas logo se agiganta e, por estar em um poema, em seguida adota a forma de um homem normal, para poder ser mais convincente. Lamentando ter falhado em sua intenção de livrar Jesus da cruz, relembra alguns fatos narrados no Evangelho de Mateus, mas dando a eles uma interpretação idiossincrática, que poderia ser a do sneso comum: alguém que conhecendo sua sina prefere morrer, e fica mesmo vários dias sem comer nem beber nem fazer sexo, certamente estaria com sintomas inequívocos de uma síndrome depressiva; igualmente se alguém chega pra você emagrecido, sujo, e se dizendo rei ou Filho Dileto de Deus, seria de se esperar que você julgasse que ele estava delirando... Embora não fosse, evidentemente, o caso ali, mas o Sr. Diabo teria que argumentar de quê forma? Imaginemos então um filho normal que julga que ser morto da forma mais cruel é desejo de seu pai: não seria delírio grave aos olhos de hoje?

Vale salientar ainda que todos os argumentos de Satã, se dizendo bem intencionado, apresentando argumentos racionais mas que do ponto de vista cristão são blasfêmias sérias, e principalmente no final se dizendo triste por ter "falhado" e que até chorara diante da Morte de Jesus contribuem para reforçar ainda mais a imagem de Mentiroso e Fingidor do Velho Diabo, dando assim mais veracidade ao poema.

Há ainda um bônus curtinho, que ninguém se dedica impunemente a conselhos de tal naipe. É sobre o que somos.

absaam


OS CONSELHOS DE SATÃ


"Então foi conduzido Jesus pelo Espírito
ao deserto, para ser tentado pelo diabo" (Mt, IV, 1)



Não são para ti leitor
- eu digo originalmente -
os conselhos que Satã
oferta neste repente:
foi um certo Galileu
quem do Diabo recebeu
tais conselhos de presente.

Porém são de toda a gente
e também para ti são,
já que são versos do vento
que vagam pelo sertão
qual aboio de vaqueiro,
versos de cão Conselheiro,
estes conselhos do Cão.

Sou um homem da Razão,
não creio em feitiçaria,
mas vou contar ao leitor
uma história de magia
que se passou com Tonhão
certa noite, no sertão.
Foi lá em Santa Luzia.

Pois Tonhão, naquele dia,
decidira interromper
os dois meses de cachaça
que vinha sempre a beber
até que adormecia;
era assim que conseguia
sua tristeza esquecer.

De noite deu pra tremer
de frio, pavor, loucura...
Viu coisas de lodo e vício
e flores da sepultura.
Mas então ouve um pipôco,
pensa ter ficado louco...
- Então surge a Criatura!

Era pequena a figura,
mas logo deu pra crescer.
Virou um homem normal,
o convidou a beber.
E falou assim pra Tonho:
- "Eu sou o Cão, o Medonho.
Prazer em te conhecer!"

E fez Tonho adormecer
com uma estranha canção,
de ladainha e lamento,
de saudade e perdição...
Viu-se o Cão, amargurado,
lamentando ter falhado
na "chance da Tentação."

- "Tenho Jesus como irmão,
pois qual Anjo fui gerado
pela vontade do Pai;
só depois fui Enjeitado...
E foi qual Anjo de Luz
que fui procurar Jesus,
e lamento ter falhado...

Eu disse ao Condenado
para não se iludir
com a humana criatura
que o iria trair...
Mas ele, cabeça dura,
respondeu com amargura:
-‘Eu sei onde quero ir!' -

Bem que tentei impedir:
dei conselhos, fiz sermão...
Quis livrar do mau caminho,
lhe abri meu coração
e disse: - 'Não vale a pena
por gentalha tão pequena
se sacrificar, irmão!'

Falei da vera paixão,
de sexo, prazer e glória;
dinheiro e corrupção,
da guerra - Mãe da História!
Contei de Roma e Egito,
e do poder infinito
que nos concede a vitória.

Que sua luta era inglória,
seu sacrifício era em vão;
que a tal da raça humana
não merece a Salvação;
que do que valia a pena
uma certa Madalena
sabia qualquer lição...

Foi quando a Depressão
deu seus primeiros sinais...
Eu vi o Irmão chorar
e não querer comer mais...
Era tão profunda a mágoa
que nem mais quis tomar água
em seus delírios banais...

Mas insisti: Satanás
é sempre bom conselheiro
quando identifica alguém
com jeito pra feiticeiro;
e Jesus tinha talento:
com o meu conhecimento
dominava o mundo inteiro...

Não só pra catimbozeiro:
levava jeito também
pra ser um grande estadista
ou outro homem de bem;
advogado famoso,
um médico... mas, orgulhoso,
só pensava no além...

Eu muito tentei: ninguém
pode dizer - 'Satã trai
quando vê que um dileto
perto do abismo vai...'
Pois eu gritei pro Irmão:
- 'O que queres, fanfarrão?
Tomar o lugar do Pai?

Pois Ele dali não sai!
Mesmo que chegasses lá
te unirias a Ele
para poder governar;
porque Deus é A Direita:
Ele sempre se ajeita,
fica no mesmo lugar...'

Sei que tive com Jeová
desavenças no passado...
Isso foi há muito tempo:
quero ser Seu aliado!
Gosto muito do Inferno...
Além disso sou eterno,
E nem fui crucificado!

Vi Jesus alucinado
dizendo coisas sem nexo;
quase morrendo de fome,
de sede e sem fazer sexo.
Querendo igualar-se ao Pai,
empurrou-me e gritou - 'Sai!',
quando quis dar-lhe um amplexo...

Num discurso desconexo
falava em 'Boca de Deus',
depois chamou os humanos
de 'queridos filhos' seus...
Magro, sujo, desnutrido,
se dizia o escolhido
pra ser o rei dos judeus...

Eu disse: 'Jesus, os teus
outros sonhos eu respeito,
mas esta história de rei
me deixa insatisfeito...
Cuidado com os romanos:
os veros reis são tiranos,
podem te pegar de jeito...'

Mas se dizendo o eleito
para salvar os humanos
ele não me dava ouvidos
em seus desejos insanos:
tudo já estava escrito;
ia só cumprir o rito
de desígnios soberanos.

Eu conheço pais tiranos
- tenho muitos nos Infernos -
porém nunca entenderei,
pelos tempos sempiternos,
como alguém bote botar
o filho crucificar
entre os desejos paternos...

E por motivos fraternos,
de Jesus apiedado,
levei-o a lugares altos
e lhe mostrei meu reinado:
que tudo seria seu,
caso se tornasse meu
- bastava vir pro meu lado!

Mas ele, alucinado,
deu de me tratar tão mal...
Me chamou de mentiroso,
de falso, vil, imoral...
Nada mais pude fazer
a não ser me recolher
triste ao reino infernal.

Quando penso no final,
em seu sofrimento, tanto...
Sempre sinto alguma culpa,
às vezes caio em pranto...
Pra meu sofrer minorar
eu resolvi confessar
o que contei neste canto..."

E então, qual por encanto,
foi-se embora Satanás,
porém sua razão Tonho
não recuperou jamais.
Não julga que teve um sonho;
Sentiu pena do Medonho
e quer vê-lo uma vez mais!

Mas sendo Tonho um rapaz
cristão e semiletrado
como pôde colocar
na boca do Degredado
tão terríveis argumentos?
Tão blasfemos pensamentos
de onde os terá tirado?

Eu ando preocupado
com o caso de Tonhão,
pois era muito complexa
a sua alucinação:
delírio tão trabalhado
pode ter sido inspirado
na verdade pelo Cão?

Sou um homem da Razão,
porém não sou radical.
Toda humana criação
me parece natural.
Creio no poder do Bem,
mas deve existir também
terríveis Forças do Mal.

Estou chegando ao final
desta história de pavor,
porém devo confessar
- em respeito ao leitor -
que além de cachaceiro
Tonhão é bom violeiro
e exímio cantador.

E assim o meu labor
termina tal qual queria:
sem truques, sem pilantragem,
sem mentira nem magia.
Pois com poeta acontece
de, mesmo quando enlouquece,
estar fazendo poesia.

Antônio Adriano de Medeiros


(bônus)


SOBRAS DA ORGIA

Ali no Éden,
quando o Criador
soprou o pó
e criou Adão,
já tinha aspirado muito?

Antônio Adriano de Medeiros