quarta-feira, 23 de novembro de 2011

elogio à bipolaridade


Em minha modesta galeria de personagens, dois se destacam: o Dr. Antônio Cão, "psiquiatra heterodoxo" (sic), descendente, por linha bastarda, do navegador Diogo Cão - que passou pelas terras brasileiras antes de Cabral, e inclusive deixou um marco no litoral do Rio Grande do Norte, próximo a Natal (o marco de Touros); e um louco sertanejo, Tonho da Santa. Os versos originais dedicados a Tonho da Santa provavelmente se perderam, mas não todos. Outro dia voltei a escrever um poema para o último, Tonho da Santa, e até ousei diagnosticá-lo como portador do Transtorno Afetivo bipolar, a antiga Psicose maníaco-depressiva, que permite ao seu portador episódios de franca loucura (ora de intensa euforia, oua de depressão profunda; daí o nome de bipolar, os dois pólos dos sentimentos humanos, a alegria e a tristeza. O Transtorno bipolar também permite longos períodos assintomáticos, quando a pessoa pode funcionar normalmente. Bem sabemos que o desejado é ser multipolar, pois assim se permite que o afeto momerntâneo seja condizente com a situação vivenciada pelo sujeito. Mas ouvi dizer que o bom Tonho gostou tanto do que escrevi para ele que ouso publicar no blog o elogioso poema.

Rogo ao Pai que os senhores portadores de normalidade que não vão ficar chateados...

Ah, a epígrafe no poema é de Chico Buarque, em Geni e o Zepelim (precisava dizer?)

absaam



TONHO DA SANTA: DE ESPELHO E GRATIDÃO


“E a deitar com homens tão nobres,
tão cheirando a brilho e a cobre,
preferia amar com os bichos”



Desde o Sol, e até mais longe, nos confins do universo
onde a Força Criadora começa a fazer seus versos,
há uma luta constante entre um princípio agregante
e um outro, o disperso. Deus e Diabo, Adão e Eva,
Negativo e Positivo, Fêmea e Macho, Luz e Treva,
o Ativo e o Passivo, Ordem e Caos, o Mal, o Bem.
Há quem veja na Trindade a Criação: o que vem
depois do Dois. Mas há quem A veja no Quatro:
que o Três seria ainda mero espectador no Teatro
da Existência, que o Ser só seria completo, inteiro,
quando imitasse a dualidade do Princípio Verdadeiro.
– Seria esta talvez a razão pela qual Tonho da Santa
provocasse em religiosos e moralistas ira tanta?
Aqueles que se julgam mais próximos de Deus e da Verdade
não suportavam ver num pobre lunático a Felicidade,
reservada que a julgavam para aqueles seres dignos dela...
Acontece que talvez Deus tenha lá suas preferências e caprichos
e a andar com homens tão nobres Ele prefira andar com os bichos...
Quem pode assegurar conhecer todos os segredos do Criador?
Só um charlatão, um hipócrita, um mentiroso, um traidor
à verdadeira natureza do Pai afirmaria ser seu Procurador.
Mas como não pensar que na alma dividida e singular de Tonho
não residisse um Sinal da Bênção para o pobre Medonho,
espelho que era do Princípio Dual, a bipolaridade original?
Seria por inveja que homens tão santos e cheios de moral
ficassem tão ferozes diante da simples presença daquele Ser,
e rangendo os dentes berrassem que aquilo não poderia ser?
E seria por isso que Tonho sempre sorria quando era internado?
Seria um agradecimento por não o terem matado?

Antônio Adriano de Medeiros
Abril 2010

Lua Fálica



Uma das formas de se referir ao Plenilúnio, ou Lua Cheia, é Lua Fálica. É que alguns antigos acreditavam que a Lua era nada mais nada menos que o falo de Deus; na Lua Cheia portanto Deus estaria excitado, e o Céu (deus) e a Terra (deusa, mulher daquele) estariam fazendo amor. Vai um Sâo Francisco das Chagas pra não dizer que não falei dos bons cristãos. absaam



LUA FÁLICA

Houve um tempo
em que todos sabiam
que a Lua era o falo de Deus.

Era quando
Céu e Terra se amavam
e perpetuavam as estações da vida.

Era necessário
que a Lua estivesse Cheia
para pôr as coisas em movimento.

Por isso que nas noites
de Lua Fálica
a Terra fica mais bonita:

Rola toda feliz
nos braços do amado;
e sempre chove em algum lugar.

Neófitos enamorados,
não se zanguem mais
quando chover em noites de Lua Cheia.

Deve haver algo mais belo
a ser contemplado
e celebrado.

É só ficar onde estão
e saber irmanar-se
a algo maior que está acontecendo.


Antônio Adriano de Medeiros



A DOENÇA DE CHAGAS

Colher flores no Mal
é o que nos torna
homens.

São Francisco
beijava as chagas
como homem
ou beija-flor?


Antônio Adriano de Medeiros

terça-feira, 22 de novembro de 2011

versos cactânicos


Essas folhinhas aí de cima são da faveleira, árvore de onde se retira a favela. Pelos espinhozinhos, caso a toquemos, sai um líquido deveras urticante. Havia no Arraial de Canudos um local chamado de Favela, por ter lá faveleiras. Dái que o nome pegou pra local de moradias rústicas, barracos e afins. A faveleira é uma árvore, mas bem que pode ser incluída aí nos meus versos cactânicos: t~em espinhos e veneno... absaam

VERSOS CACTÂNICOS

Nunca mais nasceriam versos ali!

Quem disse fou um especialista,
um homem de muitas letras,
e ele sabia muito
porque viera de longe
e falava coisas difíceis
e sabia amedrontar.

O problema seria no solo
e também no ar.
- "Salitre e pouca umidade",
ele disse.

O olhar das pessoas dali
que já era naturalmente triste
tornou-se de uma tristeza profunda
porque mesclada à aceitação
de um destino trágico.

Pareciam envergonhar-se
da própria existência infeliz
diante do especialista tão sábio
que já ia dizer
que quando falta o verso
falta o canto
e falta a beleza
e falta a paz
e falta a liber...

Mas eis que ouviu-se um velho cantar.

Era um velho louco, e cego e surdo,
e que portanto não sabia
da nova verdade revelada
pelo sábio especialista.

E as pessoas ouviram um verso novo.

Era um verso simples, raquítico.
Não era um verso chique,
mas era um verso xiquexique.

E portanto ainda nasciam versos ali.
Bem dali.

Versos de favela, urtiga e coroa-de-frade.


Antônio Adriano de Medeiros

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

no hospital dos lunáticos - 3/4




Sei que, por razões principalmente existenciais, tornei-me Diretor de um hospital psiquiátrico em Caicó aos 28 anos,em agosto de 1990, numa época em que já era proibido abrir novos serviços de saúde mental com o nome maldito de "hospital psiquiátrico". Fato é que, após aprovado em concurso público, fui chamadoi pra dirigir um hospital, o qual só depois de estar transferido foi que soube que não era público, mas sim ligado a uma instiutição filantrópica de médicos políticos; eu entrara como sendo "a parte boa", jovem, virgem no Estado e na política, e concursado; alheio ás investidas da "direita hospitalar e da esquerda antimanicomial" (termos naturalmente maniqueístas, pra enganare os bobos, que na nverdade ambos só visam o póder), na verdade só queria atender gente como Celestino de Ouro Branco, Zefa da Paz, do Povoado Cobra de Caranaúba dos Dantas, Inácio Domingos do Caicó Grande, Lindalva de Currais Novos ou aquele rapáz de Jucxurutu que diante de minha chegada certa manhã gritou "Jesus chegou!" O Celestino, cujo sobrenome era dos santos, uma dia manifestou-se zangado com seu sobrenome, não o queria mais, doravante seria apenas celestino humberto. "Não, Adriano, eu não gosto mais desse nome, santos são só imagens"., E aquilo o revoltava muito, o sobrenome dos santos era uma coisa que o estava deixando muito raivoso, extrememmanete irritado, e demorou muito aquela consulta, e ele queria que eu, com o suposto mpoder que os pacientes julgam ter o médico que o atende, mudasse o mome dele no prontuário e na vida e no universo inteiro e no passado imemorial... Até que, numa das muitas vezes em que perguimtei a razão do desejo da mudança, ele disse: - "Adriano, porque anjos somos nós" Aí estranhamente passou a raiva, alguma coisa aconteceu, os anjos e santos parece que sopraram uma brisa doce e as imagens naquela mente tão sensivel fizeram as pazes, e ele pôde alguns meses depois se apaixonar por Doutora Nina, médica, mulher de outro médico de lá, já falecida, e nunca mais me deu muita atenção; doravante só quis toido da doutora Nina. Eu também pude, ali em Caicó, por algum tempo, ser um poeta violeiro, e naturalmente alguns versos e até uns forrós e mesmo uns dois sambinhas eu os pude compor. Mas a melodia mais estranha que pude imaginar foi num cordel de mal-assombro. No Auto da Catingueira de Elomar tem uma composição onde Dassanta, a musa dos violeiros, fala "das visagens e latumias" que pôde ver e ouvir, e esse cordel que segue tem uma melodia original, tanto que as rimas não obedecem ao padrão clássico da sextilha cordelista, que pode-se dizer ABABAB, e sim ABBAAB. Alucinação na Caatinga pode ser mesmo um surto onde alguém julgou ter visto e sido perseguigo pelo Senhor Diabo, ou quem sabe uma história que narre um fato real. As imagens sugeridas são possíveis, considerandoi os mitos da fé sertaneja. Na anticlímax apoteótico do cordel, o antiherói, após bagunçar o sertão em noite de ventania,, chegando a dançar com a santa padroeira de uma cidade que já teve um São João tradiconal, acaba internado num hospício em Caicó, assim se regenerando, slavando-se e se curando de uma vez só. Outro dia um psiquiatra amigo meu, antimanicomial às vezes radicaa, cismou de mudar os últimos versos para "Não vivo mais internado num hospício em Caicó". Depois que eu já saíra de lá, da cidade de Caicó, ele quis que eu me salvasse também, possivelmente, e queria que eu insinuasse que os pacientes agora deveriam se tratar nos CAPSes Quem precisa deve-se tratar em qualquer lugar, o nome também pode ser ambuilatório de saúde mental. Mas as pessoas que eu quis homenagear no cordel abaixo passaram alguns dias internadas num hopspício em Caicó.

absaam

ALUCINAÇÃO NA CAATINGA

Uma noite mal-assombrada

eu vi chegar no sertão

a Caravana do Cão,

alegre e muito animada:

Satanás dando risada

envernizava um caixão.


Eu cheguei perto do Cão

e perguntei se era pra mim;

parece qu’ele achou ruim,

pois assim me respondeu:

- "O cabra que já morreu

é melhor ficar calado!"


Eu corri desembestado

numa estrada de andar a pé.

Atrás de mim Lucifé

soltou trezentos cachorros

- macacos usando gorros

zombavam de minha fé.


Por artes de Lucifé

eu vi muita assombração,

meu corpo inda no caixão

na missa de sétimo dia,

- papagaio me seguia

repetindo extrema-unção.


Eu entrupiquei no chão

e meti a cara na lama,

minha mulher numa cama

bem servia a Satanás;

enchendo a casa de ais,

a debochar da minha fama.


- "Mulher ruim que me difama,

vou quebrar tuda careta!" -

Respondeu Mestre Capeta:

- "Pode vir, tô preparado;

já dei em corno e viado,

sou um diabo faixa-preta!"


Nessa hora Julieta

cai num pranto inominado,

sem saber para que lado

é que pendia a sua sorte;

naquela luta de morte

seu destino era traçado.


E eu com o Diabo travado

em uma luta medonha,

como quem fuma maconha

me senti desnorteado

tendo meu saco apertado

com uma força tamanha.


Aquele que um dia apanha

do Diabo jamais esquece,

o corpo todo padece

e se fica meio louco:

desde tal dia eu sou rouco,

e algo em mim apodrece.


O Satanás só fenece

tendo-me nocauteado.

Pôs Julieta de um lado

e sumiu pela estrada;

n’outra semana a coitada

veio bater-me à porta.


Encontrei-a quase morta:

as vestes todas rasgadas,

as lindas costas marcadas

por garras e por mordidas,

nas coxas feias feridas

que até hoje não sararam.


Contou-me que a estupraram

no mato meus inimigos,

mas o Diabo é nosso amigo

e só quis beijar sua mão...

Elogiou tanto o Cão,

qu’eu fiquei desconfiado.


Saí muito aperreado

e fui procurar um vigário,

que me chamou de otário

ao ouvi a minha queixa,

dizendo: - "Homem, vê se deixa

de pensar mal do Compadre!"


Disse o padre ser confrade

antigo de Satanás,

e: – “Desconfie dos mortais,

todo mundo é mentiroso:

imitações do Tinhoso,

não passam de seus iguais!"


Eu não conheci jamais

sensação igual àquela

e pulei pela janela

totalmente endiabrado

gritando: "- O padre é viado!

Aleluia, eu digo amém!"


Fiz coisas que não convêm

em poesia serem contadas,

passei noites nas estradas

como ladrão, bandoleiro;

fui galo de um puteiro,

já entrei nu em sermão.


Eu baguncei o sertão

em noites de ventania,

zombei de Santa Luzia

e chamei pra dançar forró;

hoje estou regenerado:

meus dias passo internado

num hospício em Caicó.


Antônio Adriano de Medeiros

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

à boca da noite





Meu modesto e despretensioso blog de poesia depois volta com as coisa manicomiais, como combinado.





VERSOS À BOCA DA NOITE


Sempre há versos à boca da noite.

Alguns ela os come, e esses não
verão a luz do sol,
nem tampouco serão vistos doravante:
foram tragados pelo grande buraco negro
que há em toda noite.

Outros ela simplesmente os cospe;
esses podem até ir parar
na boca de outra noite.
Tais versos andaram espalhando
que as noites costumam se beijar
(os versos nunca esconderam sua queda
pelas coisas do amor. São uns alcoviteiros!)

Uma terça parte dos versos da boca da noite
são os que se tornam poemas.
Por isso que se diz que ao alvorecer
todos os galos são bardos.

Antônio Adriano de Medeiros

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

No hospital dos lunáticos 2/4


Nesses 27 anos em que tenho atuado em hospitais psiquiátricos, alguns deles me marcaram mais, ora por me aceitarem por mais tempo, ora por me terem proporcionado mais aprendizado. O primeiro hospital psiquiátrico onde entrei foi a Colônia Juliano Moreira, em João Pessoa, quando cursei a disciplina Psiquiatria pelo curso médico da UFPB; já ali havia, em 1984, um Pronto Socorro com os chamados "leitos de curta duração", onde os pacientes ficavam até três dias, com a finalidade de evitar uma internação mais prolongada nas enfermarias. Em sendo um hospital psiquiátrico público, estadual, com muitos pacientes, havia certas "aberrações", como as "enfermarias dos nus": uma enfermaria masculina e outra feminina nonde os pacientes ficavam despidos o tempo todo, alguns para todo o sempre, pelo simples fato de tirarem ou rasgarem as próprias vestes que se lhe davam, ou que eles traziam: parece que ninguém considerava a possibilidade de se lhes oferecerem outras. Mas foi ali que tive as primeiras aulas sobre psicopatolgia, sobre as síndormes clínicas, e as formas de tratamento psiquiátrico, ou seja, as informações que formaram o alicerce de algum saber que porventura tenha, me foram dadas nas aulas ali ministradas por Dr. Humberto Vicente de Araújo, Dr. Murilo Duarte da Costa Lima, Dr. João Leonardo Morais, entre outros.

Outro hospital em que estagiei de 1984 até o final de 1985, em João Pessoa, foi a Clínica do Stress, do Dr. José Donato Braga, o qual criou até um centro de estudos pra que eu e mais alguns estagiários apresentássemos semanalamente casos clínicos e seminários sobre as síndromes clínicas, as formas de tratamento, e assuntos correlatos à Psiquiatria e à Psicologia. Aprendi muito ali também, na Clínica do Stress original, no bairro dos Expedicionários.

Mas aí no ano de 1986, quando fazia o Internato na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, conheci o IPUB, como se chama até hoje o Instituto de Psiquiatria da UFRJ, porque antes era o Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil. Me apaixonei pelas atividades do Centro de Estudos às 10h da sexta-feira a ponto de achar que só seria psiquiatra se conseguisse estudar ali naquele Instituto, e para o ano de 1987, quando já seria médico, eram ofertados três cursos: a Residência Médica, o Curso de Especialização em Psiquiatria, e um curso novo, chamado Curso de Especialização em Saúde Mental (CESM), que era o xodó da então diretoria, e misturava médicos com outros profissionais, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, e afins. Eram muitas as discussões sobre tais cursos, e eu não quis me inscrever no último, só nos dois primeiros: havia naquela época um clima meio belicoso no Curso de Saúde Mental contra os psiquiatras, que afastava alguns médicos dele; pelo menos foi om que eu senti nas aulas em comum que tivemos, vez que fui aprovado - foi uma das maiores alegrias que tive na vida! - no Curso de Especialização em Psiquitria.

Naquele ano de 1986 o clima no IPUB estava pesado. A diretoria nova era, segundo expressão de alguns, formada por "comunistões" (sic),e queria acabar com o Curso de Especialização em Psiquiatria (CEP), para o qual foram aprovados apenas cinco alunos: eu, nordestino, um mineiro do interior, e mais três cariocas, todos varões. Logo se formaram duas turmas, o que era natural, os cariocas e os outros; mas o mais grave foi quando soubemos que tínhamos, nós os outros, perdido nosso supervisor apenas uma semana após o início do curso, ligado ao então medalhão da psicofarmacologia do IPUB à época, e que resolvera, junto com outros professores, boicotar a direção ou aquele curso em particular, nunca conseguimos entender direito o que houve. Parece que o doutor, psiquiatra da zona sul do Rio metido a galã, não quis perder tempo com um nordestino e um mineiro do interior este último formado já há algum tempo... Ainda o ouvi reclamar do "pouco saber" dos candidatos daquele ano, razão pela qual somente cinco foram aprovados, e todos homens, ainda... Não valia a pena perder tempo... Houve ameaças de que não haveria o curso, que não valeria a pena e tal... Mas logo apareceram professores dispostos a nos salvar e àquele Curso de Especialização que duraria um ano e alguns meses, de fevereiro de 1987 até maio de 1988, quando apresentaríamos a monografia final. Além de atividades diárias nas enfermarias com assistência direta aos pacientes internados, tínhamos o ambulatório duas vezes por semana, o centro de estudos nas sextas, e uma atividade comum com o Curso de Especialização em Saúde Mental (deixou de existir uns anos depois; já o CEP passou pra ser de dois anos depois daquele ano trágico; parece que hoje mudou de nome, é mais abrangente). As "aulas de mistura" (digamos assim) dos dois cursos eram verdadeiros shows performáticos onde meninas principalmente assistentes-sociais e psicólogas se esmeravam em mostrar a superioridade humana e científica do interesse pelos pobres e da "compreensão psicodinãmica" sobre o "velho e ultrapassado modelo médico" de compreender os transtornos mentais (Um pouco de um e de outro não seria melhor, visto não serem antagonicos entre si?) Lembro de um show desses que me causou séria impresão: uma jovem, a que falava mais, moça de cor e de óculos da zona sul do Rio e assistente-social recém-formada, discorreu por cerca de meia hora sobre uma visita que fizera na semana anterior, numa atividade do curso, à favela da Maré; teria sido a primeira vez que ela fora a uma favela, e o principal detalhe, o qual ela ressaltou diversas vezes em seu relato emocionado foi que ela sujou seus sapatinhos na lama... Nossa, como aquilo era importante: "Eu pisei na lama da favela, meus sapatos ficaram sujos com a lama da favela! Vocês sabem sabem o que é isso?" Eu ainda quis dizer que, ainda menino, com oito anos, o açude ao lado lá de casa secara, e eu, correndo descalço com outros meninos entre as poças lamacentas, descobri qpisandpo na lama grossa a gente ganha umas espécies de botas que nos capacita a andar sobre os espinhos, mas era tímido demais pra trazer uma peripécia sertaneja sem valor para a Praia Vermella, no hospício que recusou a internação de Antônio Conselheiro por "falta de vagas"...

Graças aos professores Eustacchio Portela Nunes, Ana Maria Biolchini da Silva Gonçalves e Wanda Leme Pereira, além da Dra Miriam, do ambulatório, nosso curso foi salvo e valeu muito a pena. Mas minha idéia era ficar no Rio pro resto da vida: fui colonizado pelo Pasquim, Rádio Globo e Rede Globo, e pra mim só haveria vida inteligente no Brasil ali, e eu fui pra não voltar mais. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que, para os dois coordenadores do cursos CEP e Residência Médica, eu só poderia fazer outro curos ali se primeiro voltasse pro Nordeste e depois retornasse ao RIo. Seja porque seria um sina de respeito pela Ordem e Hierarquia, seja por poragmatismo "(não se pode sair assim sem destino", disse o coordenador da RM ao me reprovar a primeira vez; "Você é de lá: com o que você sabe, já dá pra ser psiquiatra lá. Vá primeiro pra sua terra, se um dia precisar voltar, a gente ajuda!", me disse o coordenador do CEP, explicando as razões porque eu, que era ex-aluno da UFRJ agora, não pude progredir nos estudos).

Ainda tentei por mais dois anos, quando vi que não tinha mais jeito, vim-me embora em março de 1989, pensando em voltar em novembro pra novos exames; mas aí teve um concruso no Rio Grande do Norte, eu fiz, passei, fui tão bem recebido lá que não consegui mais fazer as provas no outro RIo, o de janeiro, embora tenha ido viajado. Com isso troquei a Universidade pelo Sertão, a cátedra pela clínica, o Rio de Janeiro por Caicó e Natal, e acredito que em termos de humanidade mesmo, eu fui mais útil aqui do que lá. E, sinceramente, quem tem Caicó e Natal, pra quã precisa de outra cidade qualquer?

O cordel a seguir agradou bastante meus amigos do Harmonia Enlouquece, grupo musical formado por pacientes e doutores do CPRJ, Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro, lá na Praça da Harmonia, do Rio. Eu também gostei muito de conhecê-los. Ele faz parte do meu Zoológico Fantástico, e a poeta e pediatra da dedicatória teve a culpa de, entre peixe com tapioca e cerveja lá no mirante de Barra de Tabatinga, perguntar, quando lhe falei que o Zoológico Fantástico tinha todas as instiruições e repartições públicas brasileiras:

- Mas cadê o hospital?

Pois é, faltava o hospital. Psiquiátrico. O Dos Cavalos eu ainda não escrevi, não sei se terei tempo, disposição, e coragem. O Hospital dos Macacos é uma sátira aos velhos hospitais psiquiátricos onde se julgava medicalizar cientificamente o comportamento humano, seguindo o modelo uma neura psiquatria médico-policial que não gosta de ser contrariada: se há algum mérito no que ainda resta de novo no chamado Movimento Antimanicomial, é responder aos psiquiatras: é preciso que alguém responda aos psiquiatras, se não a coisa pode ficar perigosa. Da mesma forma, alguém terá que responder e, se necessário, medicar, o Movimento Antimanicomial, se ele continuar insistindo em reinventar um novo mundo.

A nossa modesta contribuição à reforma dos hospitais psiquátricos, que era mesmo muito necessária - quando menos para dar um pouco de humildade à psiquiatria e a psiquiatras tupiniquins - começa citando um hospital onde chovia, fazia frio, e faltava luz. Depois surge um médico, cujo nome é Simão, cuja sonho é mais "fazer ciência" do que diminuir o sofrimento das pessoas que lhe procuram buscando ajuda. O "tesouro do doutor" é uma jaula com macacos überobedientes (gostou?) onde a um assovio seu, eles se levantam e fazem fila indiana, e, a uma chicotada no ar, eles correm a se deitar em seus galhos. O Doutor Simão ainda nos dá algumas pérolas de seus saber, como amostras grátis.

Cabe ressalvar que o hospital imaginado pelo antimanicomiais é impossível: eles querem obrigar os médicos clínicos e cirurgiões, e de outras especialidades, a "evoluírem" (desculpem, mas não há outra palavra; e isso é uma ironia!) a ponto de internarem, ao lado de uma puépera, de um pos-operarório, ou mesmo de grande queimado, um paciente em agitação psicomotora ou com delírios e alucinações graves. A Medicina sabe que isso é impossível (e impensável) desde Pinel, na Década de 90 do Século XVIII. Seria o Hospital dos Cavalos (Sociais, naturalmente).

absaam

O HOSPITAL DOS MACACOS


Para Márcia de Souza Leão Maia


Chovia e fazia frio
no antigo manicômio,
onde se enfrenta doenças
como em qualquer nosocômio,
além daquelas urdidas
pelas artes do Demônio.

No crachá escrito "Antônio"
fui, com certa apreensão,
ao antigo hospital
para o primeiro plantão;
recebeu-me o diretor,
o velho doutor Simão.

Ele apertou minha mão
bem disposto e com asseio,
dizendo: - "Nobre colega,
agora que você veio,
cabe a mim convidá-lo
para fazer um passeio".

Eu estava com receio
de não encontrar ali
alguém que me ensinasse
como deveria agir,
e diante do convite,
satisfeito agradeci.

Ele disse: - "Por aqui!"
- apertando o seu gorro -
"Primeiro vamos passar
ali no Pronto Socorro".
Nessa hora apresentou-me
Cérbero, o seu cachorro.

De medo eu quase que morro,
porém segui o doutor
que me mostrava os doentes
com ares de professor:
uns choravam, outros sorriam,
uns estavam em estupor.

Uma gemia de dor,
morava onde não sabia;
outra sofria de amor,
mais um de filosofia;
uma sonhava com o Cão,
outro com a Virgem Maria.

Um que quis fazer poesia
foi ridicularizado,
outro riu de minha cara
e me xingou de "viado",
um ao nobre diretor
chamou de "doutor safado".

O Doutor, meio zangado,
então fez a preleção:
- "Aqui só se faz ciência:
drogas, choque e contenção!
Baboseiras humanistas
são mera alucinação..."

Eu concordei com Simão,
doutor metido a bacana;
nessa hora, caro irmão
- minha vista não se engana -
eu o vi tirar do bolso
uma roliça banana.

E, com a cara de sacana
que têm privilegiados,
ele disse assim pra mim:
- "São todos alucinados!
Vou levá-lo a conhecer
a ala dos melhorados."

Vi alguns muito sedados,
outros de tudo esquecidos,
alguns bem abobalhados,
certos olhares perdidos,
uma veio nos saudar:
- "Ó meus doutores queridos!"

- "Esses parecem sabidos"
- foi dizendo o professor -
"porém vou lhe mostrar algo
que tem muito mais valor:
macacos domesticados
- o tesouro do doutor!"

E Simão fez um louvor
à mais cega obediência,
dizendo que com lunático
já perdera a paciência,
e então disse: "Vais ver
o triunfo da ciência!"

Que estava entrando em demência
eu só vim saber depois:
já morreu, foi enterrado
- já faz bem um ano ou dois -
mas naquela ocasião
me disse: - "Vede o que sois!"

E então o Doutor pôs
a mão em velho ferrolho
abrindo uma antiga porta
e gritando: "- Meu pimpolho!",
e então veio abraçá-lo
velho macaco caolho.

O macaco pisca o olho,
outros macacos também,
todos vêm comer banana
pois sabem que Simão tem,
mas fazem fila indiana,
e o doutor se sente bem.

E diz assim: "Não convém
se esquecer dessa lição:
mesmo os animais selvagens,
com química e com prisão,
podem aprender os hábitos
da tal civilização!"

Ele disse que a Razão
precisa ser ensinada,
que o tal livre-pensar
não passava de piada;
deu chicotadas no ar
e caiu na gargalhada.

Nessa hora a macacada
correu pro galho e deitou,
mas levantou-se de novo
quando ele assobiou.
E então o Doutor disse:
- "Sabe quem lhes ensinou?"

De novo chicoteou,
e se deita a macacada;
ele então se despediu,
dizendo: - "Boa noitada!",
mas só consegui dormir
quando raiou alvorada.

A história já foi passada,
e também passou Simão,
hoje a coisa está mudada,
não tem mais macacos não:
daquele velho hospital
- por uma lei federal -
mudaram a programação.

Antônio Adriano de Medeiros

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

no hospital dos lunáticos - 1/4


Inicio hoje uma série de quatro poemas que terão como tema o hospício. Serão postos mais ou menos uma vez por semana.

Os dois sonetos a seguir foram baseados em fatos bem reais.

É que os assim chamados loucos de verdade, vale dizer, psicóticos e retardados mentais, são inimputáveis; o que significa que não são passíveis de punição, de pena: claro que quando cometem crimes são obrigados ao tratamento compulsório num manicômio judiciário, mas um tratamento não é uma pena. Isso para a Lei dos homens.

Para a Lei de Deus, porém, a alma pecadora de um louco precisaria de perdão?

Essa a questão do poema a seguir, escrito após uma missa que fui num hospital psiquiátrico público de Natal; portanto, tal poema tem, além da eventual verdade poética, também a verdade secular, ou laica.

Falar em verdade, a palavra "manicômio" aí é colocada em sentido abrangente: manicômios são instituições psiquiátricas de imternamento compulsório e por longos períodos. Manicômio não é sinônimo de hospital psiquiátrico, como confundem alguns: uns por desinformção, outros por blefe político.

Mas há outros poemas onde discutiremos isso melhor.

Cabe, porém, dizer que hoje percebo que, mesmo sendo verdadeiros, tais sonetos, digo, tal poema composto por dois sonetos, é preconceituoso.

Ora, desde 1984 que vivo em hospitais psiquiátricos, e embora seja a psiquiatria uma ciência laica, ela não pode nem deve negar a importância que a Religião tem na vida civilizada. Não se sabe de civilização sem um sistema de crenças. É a "neurose social", como bem disse Freud em "O mal-estar na civilização". Portanto, há certos valores dos quais ninguém está livre. Nem mesmo os assim chamados alienados.




A MISSA DOS LUNÁTICOS

I

Noite negra chegara ao manicômio:
era a hora que fora assinalada
pelo austero e sisudo padre Antônio,
e então foi a santa missa iniciada.
Com sua voz firme e bem pausada
louvou as virtudes da prudência e matrimônio,
e aos inquietos de vida depravada
chamou de criaturas do Demônio.
Mas quando a todos pediu que, em silêncio,
implorassem perdão ao bom Jesus,
sonora gargalhada deu Juvêncio,
apagaram-se as velas, faltou luz.
E como em acesso de tique ou convulsões,
um velho louco gritou mil palavrões.

II

O diretor, no escuro, pediu calma,
mas em seguida começou a latir...
E todos, aflitos, ouviram-no repetir:
- "Ó Satanás, é tua a minha alma!"
Ai, que alguns não superaram os traumas:
a luz voltara, e todos viram ali
o seu doutor como um cão a grunhir;
só a jovem maníaca bateu palmas.
Grande era o espetáculo de depravação:
o padre e a moça da administração
em atos libidinosos com dois castiçais,
louvavam e davam vivas a Satanás...
- Quem mandou o padre ter a idéia indecente
de querer perdoar a quem já é inocente?

Antônio Adriano de Medeiros
Natal, 01 de agosto de 2001.