terça-feira, 24 de julho de 2012

sobre os poemas de Tânatos








Nutrindo-me que estive na ambrosíaca doutrina que secretas, Louvado Sejas!, pude então compor algo sobre o sagrado ofício.

                                                          *       *        *

Há poemas que podem se dizer populares, porque qualquer poessoa o apreende. E há os poemas que só as pessoas mais cultas conseguem apreendê-lo em sua mais completa tradução. E há os poemas para os poetas. Mas não para qulaquer poeta: para os poetas cultos. Tenho a pretensão imodesta de ter escrito alguns desses poemas, e de que este poema a seguir é um deles. Pretensão a um só tempo louvável e censurável, talvez.

Apesar do título, o poema reza sobre os escritos de Tãnatos por exclusão, pois trata apenas dos poemas - da obra de Eros.A obra de Tânatos seria o cemitério da Poesia, a saber, a prosa, a crítica, e sermões religiosos e morais.

                                                          *         *         *


O poema pediu um bônus, e o traduzi pelo Traduzir-se de Ferreira Gullar. O Poeta escreve nos domingos uma coluna em um dos cadernos de cultura da Folha de São Paulo, e naturalmente há sempre beleza e riqueza naquela meia-página de jornal. Outro dia descobri que Augusto dos Anjos morreu não de pneumonia, mas do tratamento médico da época para as infecções pulmonares. Onde? Na referida coluna do poeta mencionado. Domingo passado o Poeta dissertou sobre o bóson, a recém-identificada "partícula de Deus", e com que elegância, com que sabedoria, com que maestria! Fiquei sabendo que foi o tal bóson quem permitiu o surgimento da Matéria; que o que conhecemos como Universo e que nasceu com o Big-Bang já existia como energia... O que surgiu ali foi "apenas" a Matéria. Vai pois o bônus do Poeta, tão maior do que eu, traduzindo pois uma louvação e um agradecimento.

absaam









SOBRE OS POEMAS DE TÂNATOS

                "Pra quê rimar amor com dor?"
                                 Monsueto-Arnaldo Passos





A métrica é a erótica na Poética.
Os versos fazem amor
em seus gestos perfeitos.
Mesmo quando rimam, com dor.

Dois polos. Mas quatro
são os pontos cardeais.
A bipolaridade, o rigor, o espontâneo e o teatro.

O movimento do verso,
o sorriso, o sexo, o êxtase
da criação devem ser precisos.
Que sejam precisos quem quer é a métrica.
Tudo que é prosa se desmancha no ar.
Um poema permanece - pedra e flor!

O poema é o cântico dos cânticos.

Celebra o beijo sagrado
da alma com o Sopro
que é sua inspiração e bálsamo.

O poema é um beijo a quatro bocas.

Espelho exato, reflexo geométrico
das quatro letras do Nome
- que também pode ser Amor.

Porque Eros é um deus que brinca.
O Deus pode - e gosta de - brincar.
Ele faz poesia.
O poema é sagrado sem ser místico.
Quem inventou a Moral foi o Diabo;
o Deus, a Poesia.

Tudo que existe
Eros criou
brincando.

Só os tristes se preocupam
com misticismo e moral.
Todos os tristes.

Por isso é que são tantos
os poemas de Tânatos.



            Antônio Adriano de Medeiros
            Natal, 20 de julho de 2012



                                                               BÔNUS





Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
                  Ferreira Gullar

quinta-feira, 19 de julho de 2012

a fotossíntese do Mal



Talvez por tanto gostar das Flores do Mal, de Charles Baudelaire, imaginei-me a mim mesmo palco de uma Fotossíntese do Mal, algures, nos bons tempos em que tudo era poesia. O soneto é muito bem escrito, e a ideia, a explicação que o poeta dá para sua idiossincrática atração para as coisas criminais, bastante interessante: se quando se quer dizer que alguém é primitivo, selvagem, costumamos chamá-lo de "animal", um ultra-primitivo seria pois um "vegetal", vez que tal Reino é sem dúvida forma de vida mais antiga que a corja animalesca da qual fazemos parte, sobre a Terra.

absaam



A FOTOSSÍNTESE DO MAL

O veneno, a traição, o furto, o assassinato;
o sequestro, a extorsão, o linchamento, a curra;
o sadismo inveterado e até simples surra
atraem minha atenção e arrepiam-me o tato.

Para mim nada é melhor que ouvir a voz que urra,
contemplando um par de olhos que só suplicam clemência,
da indefesa vítima que, em sua pura inocência,
confiou nas promessas do patife que a esmurra.

Fazer o mal é tão bom que ás vezes até machuca!
E a maldade que há em mim, tão antiga, já caduca,
não se cansa de renascer toda manhã, bem cedinho...

É que vem a luz do sol e desvia-me do caminho
provocando no meu íntimo a Fotossíntese do Mal...
E eu já acordo tramando algum Pecado Mortal!


            Antônio Adriano de Medeiros


quarta-feira, 11 de julho de 2012

haikais



 O haikai, haiku, ou haicai (ou ainda haico, forma jocosa de se escrever tal nome entre nós) é uma forma poética japonesa que prima pela concisão e objetividade. Em japonês, os três versos, um de cinco sílabas, outro de sete, e mais um de cinco, são escritos em linhas verticais. Em português, em três linhas horizontais. Os haikais não precisam de um título, eles devem falar por si mesmo. Um haico deve, em sua concisão e objetividade, ser capaz de dispensar um título, ele conterá nos três versos a idéia desnvolvida, carregada de beleza e emoção. É muito difícil escrever um haikai verdadeiro, pois. Eu talvez tenha unjs dois, três no máximo.

Vamos "explicar" (hum!) esse primeiro, que considero minha obra-prima haikainiana: A Noite, como o Sol,  vem do Oriente, is to é do leste par ao oeste. Ora, havendo a personificação da Noite, ela seria uma mulher; sendo uma mulher e vindo do Oriete, usaria um chador, aquela vestimenta negra que cobre o corpo feminino; mas este chador negro da mulher Noite teria o brilçho das estrelas, e portanto "motivos de luz". 

O segundo haikai foi uma homenagem que fiz ao falecido poeta amazonense Anibal Beça, uma pessoa muito boa, além de grand epoeta e exímio haikaísta. Sempre que ela chagava nas liustas d epoesia, vindo do rio, que ele morava em Manaus, na casa chovia alegria, pois ele traria seus  raros versos, os peixes dourados.

O terceiro também é um haikai verdadeiro, embora possa parcer ambíguo. Descreve uma cena campestre onde dois veadinhos ainda jovens brincam, felizes. A partir daí, após este, os haikais passam a ser ambivalentes, ora cômicos, ora eróticos, sendo que Poetisa moderna também poderia ser umj haico veradeiro, se não fosse tão impregnado de duplo sentido. Já os hahahaikais galináceos e os equinos  já se sabem cômiocs e eróticos, sem no entanto deixarem de ser, pelo menos formalmente, haikais. Ainda tenho os haikais felinos e as máximas zoológicas em forma de haikais, mas fica pra outro dia. Não vamos cansar os delicados olhos da leitora.

absaam


haico

Vem do Oriente, Noite.
Traz no chador negro
motivos de luz.

           Antônio Adriano de Medeiros


haico a Anibal Beça

Anibal vem do rio.
Na casa chove alegria,
os peixes dourados.

          Antônio Adriano de Medeiros




haico

Brincando á fresca,
alegres e saltitantes,
veadinhos jovens.

   Antônio Adriano de Medeiros



POETISA MODERNA

Poetisa moderna
conhece o canto da rola
e nunca engasga.


Antônio Adriano de Medeiros




haico

Corria que nem louca.
Relinchava no curral
a égua no cio.

          Antônio Adriano de Medeiros




OS HAHAHAIKAIS GALINÁCEOS

1.

Em terra que tem bichos,
se brincar com a galinha
há que pagar mico.

2.

A galinha choca
seus ovos confiante,
longe do falcão.

3.

Levaram mais milho
ao galinheiro próximo,
ou é um sarau?

4.

Se galo beber
galinha abandona pinto
atrás de peru.

5.

Bela franguinha vende
naquela panificadora
as suas coxinhas.

6.

Um frangote rico
bota galinha a perder
em toda vizinhança.

7.

A galinha nova
nunca precisa de cafifa
para se coçar.

8.

Toda enfeitada...
Coitada da galinha:
o galo era frango.

9.

E se a galinha
do vizinho é bem melhor
e quer pôr seus ovos?

10.

São miolos miúdos:
sempre que macaco grita
a galinha concorda.



11.

Que frango mais estranho!
Não quer saber de galinhas:
vive entre os pintos.
 


       Antônio Adriano de Medeiros




HAHAHAIKAIS EQUINOS
1

Pra quê coxas grossas
se a sua inteligência
já mostra ser de égua?

2

Mãe burra brigou:
foi por ciúme ou foi raiva?
- A filha levou pau!

3

Requebram-se éguas:
uma é loura; a outra, morena.
Deve ser o Tchan.

4

Ouvem-se no pátio
relinchos de éguas jovens:
viram um cavalo.

5

Garanhão já velho
amanhece bem satisfeito:
lavara a égua.



Antônio Adriano de Medeiros




quarta-feira, 4 de julho de 2012

sonetos de corno e putaria



Passado então o São João, onde fomos por demais saudosistas e bonzinhos, urge cair na realidade, e vamos logo com força postar uns sonetos bem malditinhos, sonetos de corno e de cabaré, ou de chifre e putaria. como queiram.

Os seis (logo seis, esse número?), pois bem, a meia-dúzia de sonetos a seguir na verdade são dois poemas, e tiveram, não há como negar, inspiração verdadeira, digo, os poemas a seguir tiveram  - felizmente! - fatos que os desencadearam, que os provocaram, que os pediram, diria mesmo que os imploraram. Foi chifre, leitora, foi sim o velho chifre: num caso, o do solitário soneto cujo título é À Musa Adúltera, um chifre bem real, e de corpo presente, ou seja, um chifre onde a vítima, ou seja, o corno, estava presente à cena, ou pelo menos à grande casa cheia de quartos onde desenrolou-se o affair, o caso, o acontecimento. No caso dos Cinco Sonetos da Vida Familiar o motivo foi, confesso, simples ciúme.

Para quem não acredita que o velho e bom chifre seja uma potente fonte de inspiração poética, conto a história da gênese dos Cinco Sonetos, que a gênese da Musa Adúltera é pessoal demais, e basta saber que ele foi inspirado em um fato real, um chifre de corpo presente.

Pois bem, aconteceu de minha namorada daquele tempo ir comigo ao sítio de seu pai para um bom banho de rio, e de levar ainda um casal, a saber, uma mãe e seu filhinho de oito anos de idade e de mãos atrevidas. Um momento lá em que A Namorada estava longe de mim e perto do Menino, bem pertinho aliás, ouvi os gritos mesclados de surpresa e alegria da Moça - "Ai! Ui! Aiui! Que menino danado!..." Quando olhei para os três, as duas mulheres riam, e o Danado mergulhava e vinha á tona, brincalhão e sonsamente, como se não tivesse feito nada demais. Como precisei fazer uma longa viagem de cerca de 7 horas de ônibus naquele final de semana, sozinho, um lápis e uma agenda vieram em meu auxílio para que eu me vingasse do atrevimento daquele Danado, eternizando ali o ciúme real de um coração de poeta. 

Só uma coisinha sobre À Musa Adúltera: quem seria o "astuto sedutor" final, o traído que talvez a obrigou a  trair pra se inspirar e inventar a história toda do soneto com seus raros adjetivos, ou a vítima anônima, o inocente da trama? Tenho meu palplite...

Bom, vale lembrar, antes de mais nada, que alguém já disse que "não há corte sã sem cortesã".


absaam





        CINCO SONETOS DA VIDA FAMILIAR


- A história de um filho da puta com pedigri e método -



1. MAMÃEZINHA QUERIDA

Minha mãe foi a rameira mais famosa de seu tempo.
Esbelta, educada, linda - corpinho de violão
desses em que todo homem deseja passar a mão -
só dedicou-se a tal vida por causa de um contratempo...

Seduzida por um cabo, aos catorze engravidou.
O milico, já casado, nem ligou pro seu estado;
a jovem ludibriada foi queixar-se ao pai amado,
mas este deu-lhe uma surra e de casa a expulsou.

Mamãe, moça de família, educada em bons colégios,
correu para a capital, e na casa de uma amiga
revelou, chorando muito, toda a lamentável intriga.

A outra moça, zangada, preparou um sortilégio
a combater o mau pai, e levou-a até Dona Dalva...
E a velha se encantou com aquele pele tão alva!



2. A INFRA-ESTRUTURA

Dona Dalva, caridosa, velha acostumada a dar
acolhida aos desgraçados, aos sem-teto e sem-pão,
ofereceu a mamãe não apenas novo lar,
como também noções básicas de uma boa profissão.

E a dedicada ex-aluna do colégio das irmãs
revelou rapidamente ser excelente aprendiz,
pois já na noite seguinte o senador deu-lhe um bis,
o que rendeu-lhe um séquito interminável de fãs.

É que o velho parlamentar, vítima de muito trabalho,
há tempos não encontrava quem lhe quebrasse o galho...
Quanto a mamãe, tanto empenho, os gritos, a rouquidão,

as posições variáveis, o rubor, o choro, o banho,
à medida que aumentavam de fregueses o rebanho,
elevavam seu cachê, na mesmíssima proporção.



3. O PARTO

E, quando nasci, mamãe já tinha um certo conforto.
Pois, durante a gravidez, esforçou-se, noite e dia,
variando as posições conforme o ventre podia,
engolindo espadas mil e sentando em toco torto,

mas sempre dando o seu show conforme o público exigia,
pra que eu pudesse ancorar já em um tranqüilo porto.
Mas tanta dedicação e apego ao que fazia
quase que acabavam tudo e o filho nascia morto...

Ora, vejam só a hora que escolhi pra vir ao mundo!
Mamãe, sempre dedicada, com um freguês ia fundo
no teatro do labor, e o homem, inexperiente,

confundiu os seus gemidos com os do expediente,
demorando a entender o que ali se passava...
Só sei que quando eu nasci, quase que não respirava.



4. A INFÂNCIA


    "ai que saudades que tenho da aurora da minha vida..."
             Casimiro de Abreu


Poucos sabem o quão gostoso é ser criado em cabaré!
Fui muito bem recebido ao verem que era um macho:
dizem que algumas moças aplaudiram-me de pé,
e que uma preta velha preparou logo um despacho.

As moças se revezavam em educação e cuidados.
Para não atrapalhar de minha mãe os bons ganhos,
quase nunca a deixavam perder tempo com meus banhos
que, à medoida que crescia, ficavam mais demorados.

Tratavam-me como um filho, porém com mais regalias.
Às vezes desabafavam e contavam mil segredos...
Quando voltavam da rua enchiam-me de brinquedos...

- Ai que saudades que tenho daquelas fêmeas vadias,
principalmente em noites de relâmpagos e trovões
quando expulsava de seus colos os malditos rufiões.



5. MATURIDADE

No negócio de mamãe, hoje quem manda sou eu!
Esforço-me pra adaptá-lo à nossa modernidade
cursando administração numa boa faculdade,
para obrigar os gringos a aqui deixarem o seu.

Bem sei, porém, que muito mais importantes
que os estudos acadêmicos que me agravam a miopia,
foram as lições elementares que pude receber antes,
quando mascote e senhor da safadeza e orgia.

Assim, não posso negar que de tudo que aprendi
o que hoje faço melhor, o que jamais esqueci
nem por um instante só, diz respeito ao trato com mulheres.

E é com orgulho que digo que sei tratar bem tais seres.
- Sei tratá-las muito bem, pois só uso-as quando quero,
e é no tapa que resolvo se me vêm com lero-lero!




                 Antônio Adriano de Medeiros
                 10.11.1991.


À MUSA ADÚLTERA


Teu colo é um antro onde os homens se saciam!
Tua boca suga e morde, e grita, e molha
a todos que te procuram, quase sem haver escolha,
pois só queres do amor os fógos que extasiam.

És de todos a predileta, do mundo inteiro
a dileta Cortesã. - A dedicada serva do bando
não pode ver um pau duro que cai em cima babando,
nem nega a preferência pelo cabra forasteiro.

Rainha dos cabarés, inspiradora de versos e facadas,
frequentadora assídua de boléias nas estradas,
rapariga traiçoeira, causa de morte no cais..

- Ainda assim te amo, ó pobre mulher perdida,
com todo o amor que se dispensa a uma alma corrompida
pelo astuto sedutor que atende por Satanás!


           Antônio Adriano de Medeiros
           1991

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Cinzas da Fogueira



Foi uma fogueira bonita, ela se bastou por si mesma esse ano, não precisou de fogos: resplendia nostálgicos fantasmas.

A casa onde nasci, que era á beira de uma açude, ficava tão cheia nos dias de São João que era preciso ir buscar colchões na loja, além de distribuir visitantes em casas de amigos. Era tudo gente feliz, cheia de vida, e gente bonita.

A Velha da Foice foi pouco a pouco fazendo seu trabalho, e só entre 2010 e 2011 levou três duma vez, e eis que Melancolia apagou a fogueia ano passado, e esse ano a Fogueira contou apenas com quatro participantes dos originais, dos irmãos pétreos, mais duas gentis e belas jovens.

Seguem dois poemas: Cinzas de Fogueira - Um Poema no Sertão, e Para Saanta Luzia.

O primeiro narra a saga de um poema que se aventura no nsertão, e logo sente os espinhos da caatinga na cavalgada. Ele termina se assertanejando, que o sertão transforma tudo,

Para Santa Luzia é um soneto escrito nos bons tempos, a 13 de dezembro de 1991. Quando a gente vai pra Santa Luzia, á noite, daindo do litoral, e desce a serra,  ali antes da ponte vê as luzes da cidade pequenina.



CINZAS DE FOGUEIRA - UM POEMA NO SERTÃO

São ásperos.
Têm espinhos.
Os versos abrem caminhos
vermelhos
na pele do poema,
porque ninguém vai ao sertão impunemente.

Só os poemas vaqueiros,
os poemas cangaceiros
têm as vestes adequadas
- A cor deles
sobrevive incólume
ecoando arcaica solidão
na monótona métrica.
na melodia melancólica,
na rima pétrea

- com precisão!

O poema sente a minha sede
e sua
porque o calor ateia fogo no vento.
A teia de aranha
prospera pouco a pouco
e n'algum canto recôndito
da alma germina
a semente sêca
do pó, das cinzas, dos ossos sós,
dos muitos sóis daquela solidão.

Logo o poema conhecerá
em si mesmo
a raiva cega, muda e arrasadora,
a marca indelével dos injustiçados.

- Já sabe a cor deles!

Certos anjos
são incertos anjos,
são andrajos
sertanejos.



Antônio Adriano de Medeiros
Natal, 28 de junho de 2012





PARA SANTA LUZIA

Quando o carro em que viajo desce a serra
logo à esquerda identifico teus sinais
como um aceno de boas-vindas da terra
ao filho que retorna à casa de seus pais.

E os meus olhos, da estrada já cansados,
repousam quietos, impregnam-se de esperança
como se fossem no Açude Velho banhados
com imagens inesquecíveis dos bons tempos de criança.

Santa dos Olhos, Santa da Luz que é Vida,
tua lembrança jamais será esquecida
por este filho cujo encanto é só cantar-te!

Quisera eu, Minha Terra, ter a arte
de o calendário alterar com a força da paixão
transformando cada dia num eterno São João.


Antônio Adriano de Medeiros
Caicó, 13 de dezembro de 1991.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Fantasmas do velho e bom Amor



Pois é, béspa de Sant'Antôin - meu santo de devoção, irmanado ao Bom Francisco e à Mãe Luzia -  nem mesmo uma gravíssima pane em meu computador, sem dúvida urdida nas suspeitíssimas e profundas hostes do Báratro, pôde me impedir de vir aqui a uma lan house e postar dois poemas - um novinho em folha! - em louvor à nobre data, já que não poderei hoje acender a Fogueira de Santo Antônio naquela casa ali em Santa Luzia, como fiz por muitos e muitos anos. 

São dois poemas, Outros Fantasmas, e A Vida E Os Sonhos de Rita Maquileine qiue postamos hoje, 12 de junho de 2012.

O primeiro poema veio de minha preocupação com "o silêncio no poema". Sim, poruqe num poema há momentos de silêncio, até pra se poder respirar direito, mas quando o poema é bom mesmo,  em tais momentos de silêncio se faz uma reflexão sobre o que foi lido até então e surgem como que ecos reflexivos que preenchem tal silêncio com sons e imagens bem nossas, inspiradas pelo poeta autor daquele poema, e, claro, de acordo com tudo que lemos e vivenciamos até então. Tendo ainda que O Livro do Gênese pode se considerado um poema, como todos os Livros que deram origem a deuses, anjos, diabos, pode-se dizer, ou pensar, ou  escrever, que os anjos são "fantasmas diversos" (outros fantasmas) que, ao invés de amedrontarem ou assombrarem, iiluminam nosso caminho e velam por nós.

Pronto, está então aberta a porta para a entrada dos Fantasmas do Bom e Velho Amor, todos eles aqui representados pela lembrança da caicoense moreninha auto-denominada "Rita Shirley MacLaine", que tão gentil e doce e calidamente acolheu-me em seus braços numa noite já longínqua de São Pedro na cidade de Várzea  nalgum felicíssimo ano do final da Década de 80 do Século passado (O tradicionalíssimo João Pedro de Várzea, nos limites da Paraíba com o Rio Grande do Norte, hoje em dia é depois depois do tríduo junino, já no mês de julho, mas naquele tempo era ainda realizado na data tradicional de São Pedro).

Nesses tempos de globalização, nada como modernizar a empresa e anglicizar, ou americanizar, o próprio nome, para que a entrada de clientes, dólares e euros, possam trazer frutos mais concretos ao velho amor. Rita Shirley Maquileine foi uma pioneira, e era romântica, e merece a homenagem, pois suas fantasias tinham o amor mesmo, o verdadeiro, como fim: ela só queira sonhar mais alto, coisa de cinema, amor com arte, trilha sonora de qualidade inclusive. Hoje em dia as meninas mais radicais ali na Praia de Ponta Negra, na boa e cosmopolita Natal, já dispensam os nativos de cara: - "Só saio com gringo!" Claro que duas de cem, ou três em último caso, as fazem pensar melhor, mas essa é uma realidade do amor nos tempos do dólar.

Rita Shirley MacLaine, porém, era uma menina doce e pura, como decerto ainda deve ser, além de belíssima em seu jeans com um agasalho braquinho com motivos azuis e vermelhos!

O "Curso Normal", ou "Pedagógico", era um curso que qualificava as moças para serem professoras, e deve existir ainda com outro nome. O Funrural, nos anos 70 e 80 do meu tempo, era que a Previdência dos trabalhadores rurais, e lidava com sindicatos, licenças e aposentadorias da pessoas ligadas à agricultura e decerto pecuária.

O leitor mais atento perceberá que a partida da estrela de sua cidade natal abalou de tal forma a estrutura da mesma que até as estrofes do poema se modificam, passando de sextilha para septilha - Tem nada não, Ritinha, deixe o povo falar: você tornou sua cidade e a Poesia, maiores!

absaam
         


OUTROS FANTASMAS


Quando o poema é de grande calado
pode-se ouvir no silêncio
da pausa precisa da inspiração
estranhos ecos
que refletem
as imagens mais que sugeridas
pelos versos impregnados
de catexias.

Quando o poema é de grande calado
pode-se ouvir no silêncio
os murmúrios encantados
do canto.

Porque toda a Poesia é fantasmagoria.
Entretanto os seus fantasmas
antes de causarem medo,
extasiam.

Que os anjos nada mais são
do que os fantasmas da Poesia.

Quando o poema é de grande calado,
pode ouvir no silêncio
fantasmas de versos.


Antônio Adriano de Medeiros




A VIDA E OS SONHOS DE RITA MAQUILEINE


Nascida entre a igreja
e a praça principal,
filha de funcionário
lotado no Funrural
e de uma professora
que fez o Curso Normal,

tem futuro especial:
para que qual astro reine,
teve a era assentada
no cartório de Gisleine
com um nome de estrela,
Rita Shirley Maquileine.

Por mais que sua mãe treine
a grafia consertar,
porque não sabia inglês
na hora de registrar,
o que a Lei escreveu
não mais se pode alterar.

Ajoelhou no altar,
implorou a deputado,
falou com vereador,
dormiu com advogado,
mas o nome "Maquileine"
não pôde ser revogado.

No dia do batizado
o santo padre explicou
que amor à Língua Pátria
a mãe ali demonstrou:
pegou um nome estrangeiro
e o abrasileirou.

A família se apegou
à tão santa explicação,
e a menina cresceu
obedecendo à lição:
pegar tempero estrangeiro
e misturar com feijão.

Ritinha não teve irmão,
sempre sozinha a sonhar,
brincando com as bonecas,
sua casa a arrumar,
e só depois que foi moça
é que deu de namorar.

O primeiro foi Vavá,
mas a mãe não aprovou:
o pai era cachaceiro
e o namoro se acabou;
um soldado de puliça
da menina s'engraçou.

Mas o namoro findou
já pelo terceiro dia,
quando Ritinha notou
que o soldado fazia
carinhos indecorosos
na empregada Maria.

Teve Neném de Luzia,
pobre, mas rapaz direito.
Valério, que tinha fusca,
tentou, mas sem ter proveito,
pois quem tirou seu cabaço
foi o filho do prefeito.

O ladráo véi deu um jeito
naquela situação,
pois Rita era de menor,
podia dar confusão:
aposentou o pai dela,
empregou na Fundação.

Depois disso, Zé Grandão
deixou Ritinha em ardência.
Em seguida, Zé de Joca,
desquitado de Vicência,
fez Maquileine feliz
e lhe deu experiência.

Ela bate continência
e sabe fazer mingau;
aprendeu que pra ser gata
não basta fazer miau,
e que cobra venenosa
mora no oco do pau.

Um dia da Capital,
chegou Sônia Malazarte,
que andava quase nua,
tatuada em toda parte,
e que disse pra Ritinha
valorizar sua arte:

- "Você vive aqui qual mártir
desses cabras do sertão,
montada por agroboys
que a esporam sem perdão,
e no fim da vaquejada
não lhe sobra um só tostão..."

Ritinha disse que não
poria o amor à venda,
pois ganhou do desquitado
já um vestido de renda,
e aquele advogado
a levava pra fazenda.

- "Ai, pobre menina: aprenda
que o que vale é dinheiro!
Você vai perder a vida
s'entregando a beradeiro:
a mulher só tem valor
quando dá pra estrangeiro."

E Sônia mostrou primeiro
o seu colar de brilhantes,
depois suas muitas jóias,
- ouro, prata, diamantes -
tudo aquilo conseguira
com seus amores pagantes.

Rita pensou nos amantes
que só trazem humilhação,
comentários no colégio
da baixa reputação;
até de mulher casada
levara esculhambação...

Sônia voltou no São João,
trouxe máquina fotográfica,
e do corpo de Ritinha
fez imagem geográfica:
montanhas, montes, floresta
e a boca, santa e mágica.

E a decisão foi trágica:
houve choro na estação.
A filhinha do casal
se despediu do sertão.
Mas voltou no fim do mês,
buchuda de um inglês,
de francês, ou alemão.

Hoje vive de pensão,
não tem do que reclamar.
Já deu cria à Maquidonna,
à Maquileide e Sará.
E as três já foram informadas
que só serão batizadas
nas espumas d'além mar...


            Antônio Adriano de Medeiros
         


terça-feira, 5 de junho de 2012

do lirismo sertanejo: os versos tolos



Pois bem, como vem chegando A Festa de São João, e realmente existe o sério risco de que o blogue não seja atualizado antes do  assim chamado Dia dos Namorados, em verdade Véspera de Santo Antônio, dito o casamenteiro, vamos maquiando aqui a casa com versos bonitinhos, bem comportados, até líricos, pra não dizerem que só falei das dores. 

O primeiro poema, com quatro haikais, retratam a feliz época da "pegada de inverno", com diversos sentimentos da alma sertaneja, inclusive o medo dos trovões; o último haico é exagerado, vez que a Fogueira  sertaneja não tem essa finalidade mitológica de aplacar a ira dos deuses, isso era coisa de gregos antigos, sendo que, numa visão humanística, a nossa fogueira seria - a fogueira dita de são joão - para aquecer a noite da chegada do frio ao hemisfério Sul (informação de Thomas Mann em A Montanha Mágica). O segundo poema é uma fantasia sobre a pegada de inverno, o amor, e a Lua. E o terceiro é um soneto onde há o retorno da velha esperança amorosa, uma recaíds, digamos assim.

absaam






NOSTALGIA SERTÂNICA

Frio no sertão,
cheiro de terra molhada
em tarde de lua.

Já longe os marrecos
que passaram de manhã,
um grupo cantante.

Os trovões à noite
vão grunhir ameaçadores,
gritos dos deuses?

Se não chover mais,
aplacaremos a ira
com uma fogueira.


Antônio Adriano de Medeiros




FANTASIA SERTÂNICA

Quando o Inverno pegou
a Lua Cheia secou
de tanta chuva que era.

- E aqui virou primavera!

E enquanto minguava a Lua
eu vi Luciana nua
espiando da janela.

- Bem mais que a Lua era bela!


E nem bem a Lua sumiu
uma Lua Nova surgiu
no meu céu fantasiado.

- E eu me vi apaixonado!

E um desejo fremente
foi em meu quarto crescente
a partir daquele mês:

- Enchê-la de gravidez!


Anônio Adriano de Medeiros




VERSOS TOLOS

Nuns versos sem valor me desespero
na angústia maculada de ser louco,
e rindo sem motivo, achando pouco,
da poesia a mastigar farelos.

Os versos que te dou não são mais belos
que aqueles que decerto outro cantou
aconchegado em meio a teus cabelos,
os versos tolos, versos de amor.

Por versos de amor ainda espero
na curva calma e franca do carinho;
o albatroz agora quer um ninho.

Quem sabe ainda um luar amarelo
nos ombros de mulher quase biônica?
Depois a explosão da bomba atômica.

(A alma, velha e louca, queda atônita.)


         Antônio Adriano de Medeiros