sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

no hospital dos lunáticos - 4/4


Nessa quarta e última parte da modestíssima série No hospital dos Lunáticos, vamos abordar a questão do tratamento de dependentes químicos em regime de internação, que só um alienado julgaria desnecessário em muitíssimos casos, mormente depois do advento do crack, mas ainda em casos de dependência de cocaína aspirada, injetada, e outros de alcoolismo severo, quando a pessoa dependente química não está conseguindo ficar abstinente. Sobre drogas tipo LSD e heroina não opino porque nunca vi tais casos, aliás vi apenas um caso de dependência de heroína em meus anos de Rio de Janeiro, e era necessária a internação.

Vale dizer que me refiro a Dependência Química pura, sem dignóstico psiquiátrico anterior,isto é sem psicose anterior, e sem sequela irreversível: tais drogas tanto podem provocar síndrome amnésica (tipo a do alcoolismo, e irreversível em sua totalidade) como uma psicose residual, espécie de cicatriz comportamental grave que alguns usuários pesados e crônicos (por longo tempo) padecem; o termo "residual" sempre significa irreversível em seu todo (com o tratamento psiquiátrico podem melhorar, há atenuação dos sintomas, tanto nas residuaisi como nas amnésicas). Há ainda os complexos casos das psicoses funcionais (psicoses tipo esquizofrenia e transtorno bipolar) associados a drogas psicotrópicas - sempre será necessário usar medicamentos antipsicóticos.

Com relação à maconha, é minha modesta opinião que uma pessoa que venha a ter problemas graves com a maconha já tinha uma herança psicotógena muito forte; o uso da erva entrou como um sintoma. Mas também não posso impedir um pai que queira, assim como o Herdeiro do trono inglês, internar seu filho porque soube que ele está usando maconha. Apenas diria que certos medicamentos psiquiátricos também podem deixar sequelas irreversívies (discinesia tardia) ou mesmo serem muito graves ou fatais se não tiverem um diagnóstivo precoce (síndrome neuroléptica maligna). Há ainda pais que julgam que o uso da maconha pode levar o filho a conhecer o mundo underground, o que não mseria o desejo deles pais, como no caso do herdeiro do trono inglês, mas isso é muito alto para o alcance deste modesto escrevinhador.

Com uma coisa porém ninguém se engane: algumas substãncias serão sempre ilícitas, terão sempre seu uso proibido pela lei. Pouca gente sabe a razão mesma, mas ela é tão óbvia: é só pensarmos na razão mesma da existência da lei, vale dizer, da Justiça - ela existe pra proteger os mais frágeis. E há pessoas mentalmente tão frágeis (aquelas de quem podemos dizer "com forte propensão psicotógena") que ficarão não só dependentes, mas psicóticas, até mesmo com maconha e com... bebidas alcóolicas! Tais pessoas talvez acabassem tendo problemas mentais graves mesmo sem usar drogas, mas isso demoraria mais cinco, dez, sei lá, vinte anos, e poderiam mesmo, em tese, nunca virem a padecer de tais males; daí que a lei, por sua natureza profilática e vigilante no meio social, sempre ser contra o uso de tais substâncias.

Feitas essas considerações preliminares, passemos ao estado atual das coisas no Brasil, focando principalmente a política atual de combate ao crack, com a chamada internação involuntária dos dependentes. Era necessário. O estrago do crack na mente de uma pessoa é grave demais. Vi jovens de 16 anos saírem de casa, abandonarem tudo, pra viverem em quartinhos de quintal de subpensões apenas para terem dinheiro para usar o crack; a uma delas perguntei se o sentido da vida seria então usar crack, e ela me respondeu assim: "É claro que é!"

Já li gente dizendo que a internação involuntária trouxe um atraso de cinquenta anos à política de saúde mental no país... Ignoram a psicopatologia, não pecebem que um trago de crack provoca uma alteração no estado da conciência (psicopatologicamente falando), que, com o uso repetido, faz o dependente viver num mundo mais estreito, tranformando-o num planeta que gira em trono do sol-crack, e, o que é mais grave, a órbita vai se tornando cada vez menor, e tudo que a pessoa faz ou pensa tem na realidade o único objetivo d epoder voltar a adquirir a droga, e que só uma internação prolongada (de uns quatro a seis meses no mínimo) poderia tornar o lado saudável de tal pessoa forte o suficiente para que ele pudesse resistir ao delírio da fissura, ou seja, ao desejo agudo que surge obrigatoriamente naquelas pessoas que conheceram a sensação que o crack dá, à fortíssima sensação de prazer doentio que o crack provoca, que é na verdade uma pertubação do estado da consciência (o qual tem ligação íntima com o humor, e portanto com a afetividade). Outra coisa é a druaçãom da internação compulsória, não pode a meu ver ultrapassar um ano, e a primeira licença para sair deve ser em torno do quarto ou terceiro mês; deve-se ser taxativo em avisar que uma outra internação involuntária para a mesma pessoa deve ter um prazo de pelo menos dois anos, pelo menos para um período longo; uma reinternação em prazo mais curto não poderia, a meu ver, ultrapassar o período de um m~es, em casos de recaída grave.

Finalmente vem a questão de para onde a pessoa deve ir. A meu ver, vez que o que se pretende é resgatar o lado saudável daquela pessoa, o qua se en contra obscurecido pela pertrubação da consciência (e depois do humor e da afetividade) provocada pela droga, o local ideal seria um lugar saudável, onde as potencialidades normais de um ser humano pudessem ser desenvolvidas; isso remete preferencialmente a uma espécie de pequena fazenda, uma chácara, onde, além dos cuidados pessoais, do relacionamento interpessoal, ela pudesse ter atividades diárias ininterruptas, além do chamado apoio psicológico ou espiritual. Isso remete, em nossa realidade brasilieria, às comunidades terapêuticas.

Claro, os sábios leigos já se opõem ao que seria um caso de simplesmen te se trocar o crack por Deus ou por Jesus. É bom lembrar que a outra hipóteses seria trocar o crack por um neuroléptico ou um antidepressivo, e é bem provável que tal troca não seja bem aceita pelo dependente... Não vekjo problema algum em voltar a crer em Deus, desenvvolver um conceito de que existe um caminho melhor, mais saudável, que cada pessoa possui dentro de si uma semente da força criadora da natureza, e que essa semente pode ser desenvolvida se regada diariamente com atividades saudáveis, assim como em uma horta se trabalha diariamente limpando-se o local, adubando-se, regando-se e se retirandoas ervas daninhas. Claro que seria importante ter-se ali psiquiatras e psicólogos, contanto que tanto estes como os religiosos estejam desarmados e prontos ara uma convivência saudável entre ciência (?) e religião. Os sábios materialistas e os profetas pregadores talvez precisem se conscientizar que nem um lado nem o outro é senhor da razão; sábios e profetas pregadores também podem, e precisam, melhorar.

Finalmente, quero recomendar a modesta leitura de um livrinho do psicanalista paulista Flávio Gikovate, um livro que já tem alguns anos e que quase não mais o vi nas livrarias, mas que a meu ver, deveris ser obrigatório nas escolas (ele é voltado apra adolescentes), cujo título é "Drogas - Opção do Perdedor". A leitura de tal livro é importantíssima, ali tanto tem noções sobre a adolescência e juventude, as mudanças de tal idade, as razões pelas quais as drogas são buscadas, alguma coisa de psicologismo, e até recomedações para se buscar Deus na recuperação. Uma vcoisa interessante que vi no livro é a pergunta se se deve ou não usar uma droga para se conhecer seus efeitos; a resposta é não. Porque você pode gostar ou não gostar. Se não gostar, pronto, não valia a pena, então não precisava usar; agora, se gostar... Aí a coisa pode ser mais complicada, porque você poderá ter problmeas bem mais graves no futuro.

Bom, agora vão os textos... poéticos! Modestíssimos, são três sonetos cuja tríade a chamei de A Dialética das Drogas. Na dialética há três fases, uma idéia, seu oposto, e o julgamento final, sendo que os ilósofos as chamam de tese, antítese e síntese. Na tese, a pessoa pode usar drogas; na antítese, não pode; e na tese, as consequências, a meu ver, dizem que ela não deve.

Até porque a A Dona do Pedaço pode acabar internando-a compulsoriamente num hospital de lunáticos, ou num luigar parecido.

absaam
A DIALÉTICA NAS DROGAS: TESE, ANTÍTESE E SÍNTESE

1. Tese: o experimentador
2. Antítese: soneto para o viciado
3. Síntese: a dona do pedaço

O EXPERIMENTADOR

O lado doente do meu ser diverte-se
quando prova de seu gosto açucarado,
e todo o augusto eu em cínico tarado
logo a seu bel-prazer então perverte-se.

Por que hei de esquivar-me ao lado mais sombrio
desse meu ser que inteiro é luz e escuridão?
Eu peço, soldadinho: me mostre uma razão
para renegar às trevas o meu bom lado doentio!

- Não sabes, imbecil, nem hei de ensinar-te,
que não é esta a função da minha arte!
Acaso, ó energúmeno, não posso, no poço

mais profundo do meu ser colosso,
mergulhar nos limites do existir humano
e resgatar o escravo que finge ser soberano?



UM SONETO PARA O VICIADO

Qual um rato - existe animal mais vil? -
que em busca do queijo na ratoeira encontra a morte,
também o viciado algo de precioso na droga viu
e ao prová-la equiparou-se ao rato em igual sorte.

A cada dia repetem-se os atos insanos
que tu perpetras procurando sempre mais
a substância que te afasta dos humanos
e te aproxima dos seres irracionais.

Escravo do animal que existe em cada homem,
teus desvarios e fantasmas te consomem:
da sociedade só vergonha tu desfrutas!

E já que vieste ao mundo provido de Razão
e não qual um simples roedor que vive em grutas,
os ratos que me perdoem a infeliz comparação.





A DONA DO PEDAÇO

Meu caro leitor, fraterno,
sabe um veneno nocivo
que faz do homem moderno
um animal primitivo?

Ou já viu um morto-vivo
vagando pelo Inferno?
Acaso quer ser cativo
de algum castigo eterno?

Prove então da doce relíquia
que te oferece na cidade a gente iníqua,
e repita a dose ad nauseam, feliz...

Depois a Lei se esforçará para reabilitá-lo,
podendo mesmo chegar um dia a guardá-lo...
- A Lei que dela é patroa e meretriz!

Antônio Adriano de Medeiros


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Leprosos contemporâneos


Mal de Hansen é um dos nomes da Lepra, doença que, por não se conhecer sua causa na antiguidade e pelas marcas que deixava nos seus portadores, ter sido atribuída por séculos ao Diabo. Até um chocalho os portadores do Mal de Hansen, os assim chamados "sujos", eram obrigadeos a usar, para avisar que se aproximavam...

absaam

HANSEN


Somos necessários, nós, os sujos
de ontem, hoje e sempre, os marcados,
os perdidos, os desviados do rebanho dos bons;
os desgarrados, as ovelhas negras,
sempre somos e seremos necessários
para que a grei dos felizes
e limpos e saudáveis possa prosseguir
em seu caminho em direção ao sol.

Não usamos mais os sinos no pescoço;
não exibimos mais as marcas na pele como antes.
Existem agora os leprosos do comportamento,
os contaminados e potencialmente contaminadores
de jovens saudáveis, dos trabalhadores honestos:
foi necessário que fôssemos marcados pela lei.

A chaga aberta é inamovível porque abstrata.

Somos necessários para que eles existam,
todos esses homens sérios que nos olham
de cima para baixo
com seus olhares de costas prateadas.

Só por isso não lhes pedimos desculpas
por existirmos: somos necessários
para que eles sejam saudáveis e puros e bons,
mesmo que mintam e roubem e matem,
porque têm a alma virgem das substâncias do Mal.


Antônio Adriano de Medeiros

Doidos de Mim

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

elogio à bipolaridade


Em minha modesta galeria de personagens, dois se destacam: o Dr. Antônio Cão, "psiquiatra heterodoxo" (sic), descendente, por linha bastarda, do navegador Diogo Cão - que passou pelas terras brasileiras antes de Cabral, e inclusive deixou um marco no litoral do Rio Grande do Norte, próximo a Natal (o marco de Touros); e um louco sertanejo, Tonho da Santa. Os versos originais dedicados a Tonho da Santa provavelmente se perderam, mas não todos. Outro dia voltei a escrever um poema para o último, Tonho da Santa, e até ousei diagnosticá-lo como portador do Transtorno Afetivo bipolar, a antiga Psicose maníaco-depressiva, que permite ao seu portador episódios de franca loucura (ora de intensa euforia, oua de depressão profunda; daí o nome de bipolar, os dois pólos dos sentimentos humanos, a alegria e a tristeza. O Transtorno bipolar também permite longos períodos assintomáticos, quando a pessoa pode funcionar normalmente. Bem sabemos que o desejado é ser multipolar, pois assim se permite que o afeto momerntâneo seja condizente com a situação vivenciada pelo sujeito. Mas ouvi dizer que o bom Tonho gostou tanto do que escrevi para ele que ouso publicar no blog o elogioso poema.

Rogo ao Pai que os senhores portadores de normalidade que não vão ficar chateados...

Ah, a epígrafe no poema é de Chico Buarque, em Geni e o Zepelim (precisava dizer?)

absaam



TONHO DA SANTA: DE ESPELHO E GRATIDÃO


“E a deitar com homens tão nobres,
tão cheirando a brilho e a cobre,
preferia amar com os bichos”



Desde o Sol, e até mais longe, nos confins do universo
onde a Força Criadora começa a fazer seus versos,
há uma luta constante entre um princípio agregante
e um outro, o disperso. Deus e Diabo, Adão e Eva,
Negativo e Positivo, Fêmea e Macho, Luz e Treva,
o Ativo e o Passivo, Ordem e Caos, o Mal, o Bem.
Há quem veja na Trindade a Criação: o que vem
depois do Dois. Mas há quem A veja no Quatro:
que o Três seria ainda mero espectador no Teatro
da Existência, que o Ser só seria completo, inteiro,
quando imitasse a dualidade do Princípio Verdadeiro.
– Seria esta talvez a razão pela qual Tonho da Santa
provocasse em religiosos e moralistas ira tanta?
Aqueles que se julgam mais próximos de Deus e da Verdade
não suportavam ver num pobre lunático a Felicidade,
reservada que a julgavam para aqueles seres dignos dela...
Acontece que talvez Deus tenha lá suas preferências e caprichos
e a andar com homens tão nobres Ele prefira andar com os bichos...
Quem pode assegurar conhecer todos os segredos do Criador?
Só um charlatão, um hipócrita, um mentiroso, um traidor
à verdadeira natureza do Pai afirmaria ser seu Procurador.
Mas como não pensar que na alma dividida e singular de Tonho
não residisse um Sinal da Bênção para o pobre Medonho,
espelho que era do Princípio Dual, a bipolaridade original?
Seria por inveja que homens tão santos e cheios de moral
ficassem tão ferozes diante da simples presença daquele Ser,
e rangendo os dentes berrassem que aquilo não poderia ser?
E seria por isso que Tonho sempre sorria quando era internado?
Seria um agradecimento por não o terem matado?

Antônio Adriano de Medeiros
Abril 2010

Lua Fálica



Uma das formas de se referir ao Plenilúnio, ou Lua Cheia, é Lua Fálica. É que alguns antigos acreditavam que a Lua era nada mais nada menos que o falo de Deus; na Lua Cheia portanto Deus estaria excitado, e o Céu (deus) e a Terra (deusa, mulher daquele) estariam fazendo amor. Vai um Sâo Francisco das Chagas pra não dizer que não falei dos bons cristãos. absaam



LUA FÁLICA

Houve um tempo
em que todos sabiam
que a Lua era o falo de Deus.

Era quando
Céu e Terra se amavam
e perpetuavam as estações da vida.

Era necessário
que a Lua estivesse Cheia
para pôr as coisas em movimento.

Por isso que nas noites
de Lua Fálica
a Terra fica mais bonita:

Rola toda feliz
nos braços do amado;
e sempre chove em algum lugar.

Neófitos enamorados,
não se zanguem mais
quando chover em noites de Lua Cheia.

Deve haver algo mais belo
a ser contemplado
e celebrado.

É só ficar onde estão
e saber irmanar-se
a algo maior que está acontecendo.


Antônio Adriano de Medeiros



A DOENÇA DE CHAGAS

Colher flores no Mal
é o que nos torna
homens.

São Francisco
beijava as chagas
como homem
ou beija-flor?


Antônio Adriano de Medeiros

terça-feira, 22 de novembro de 2011

versos cactânicos


Essas folhinhas aí de cima são da faveleira, árvore de onde se retira a favela. Pelos espinhozinhos, caso a toquemos, sai um líquido deveras urticante. Havia no Arraial de Canudos um local chamado de Favela, por ter lá faveleiras. Dái que o nome pegou pra local de moradias rústicas, barracos e afins. A faveleira é uma árvore, mas bem que pode ser incluída aí nos meus versos cactânicos: t~em espinhos e veneno... absaam

VERSOS CACTÂNICOS

Nunca mais nasceriam versos ali!

Quem disse fou um especialista,
um homem de muitas letras,
e ele sabia muito
porque viera de longe
e falava coisas difíceis
e sabia amedrontar.

O problema seria no solo
e também no ar.
- "Salitre e pouca umidade",
ele disse.

O olhar das pessoas dali
que já era naturalmente triste
tornou-se de uma tristeza profunda
porque mesclada à aceitação
de um destino trágico.

Pareciam envergonhar-se
da própria existência infeliz
diante do especialista tão sábio
que já ia dizer
que quando falta o verso
falta o canto
e falta a beleza
e falta a paz
e falta a liber...

Mas eis que ouviu-se um velho cantar.

Era um velho louco, e cego e surdo,
e que portanto não sabia
da nova verdade revelada
pelo sábio especialista.

E as pessoas ouviram um verso novo.

Era um verso simples, raquítico.
Não era um verso chique,
mas era um verso xiquexique.

E portanto ainda nasciam versos ali.
Bem dali.

Versos de favela, urtiga e coroa-de-frade.


Antônio Adriano de Medeiros

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

no hospital dos lunáticos - 3/4




Sei que, por razões principalmente existenciais, tornei-me Diretor de um hospital psiquiátrico em Caicó aos 28 anos,em agosto de 1990, numa época em que já era proibido abrir novos serviços de saúde mental com o nome maldito de "hospital psiquiátrico". Fato é que, após aprovado em concurso público, fui chamadoi pra dirigir um hospital, o qual só depois de estar transferido foi que soube que não era público, mas sim ligado a uma instiutição filantrópica de médicos políticos; eu entrara como sendo "a parte boa", jovem, virgem no Estado e na política, e concursado; alheio ás investidas da "direita hospitalar e da esquerda antimanicomial" (termos naturalmente maniqueístas, pra enganare os bobos, que na nverdade ambos só visam o póder), na verdade só queria atender gente como Celestino de Ouro Branco, Zefa da Paz, do Povoado Cobra de Caranaúba dos Dantas, Inácio Domingos do Caicó Grande, Lindalva de Currais Novos ou aquele rapáz de Jucxurutu que diante de minha chegada certa manhã gritou "Jesus chegou!" O Celestino, cujo sobrenome era dos santos, uma dia manifestou-se zangado com seu sobrenome, não o queria mais, doravante seria apenas celestino humberto. "Não, Adriano, eu não gosto mais desse nome, santos são só imagens"., E aquilo o revoltava muito, o sobrenome dos santos era uma coisa que o estava deixando muito raivoso, extrememmanete irritado, e demorou muito aquela consulta, e ele queria que eu, com o suposto mpoder que os pacientes julgam ter o médico que o atende, mudasse o mome dele no prontuário e na vida e no universo inteiro e no passado imemorial... Até que, numa das muitas vezes em que perguimtei a razão do desejo da mudança, ele disse: - "Adriano, porque anjos somos nós" Aí estranhamente passou a raiva, alguma coisa aconteceu, os anjos e santos parece que sopraram uma brisa doce e as imagens naquela mente tão sensivel fizeram as pazes, e ele pôde alguns meses depois se apaixonar por Doutora Nina, médica, mulher de outro médico de lá, já falecida, e nunca mais me deu muita atenção; doravante só quis toido da doutora Nina. Eu também pude, ali em Caicó, por algum tempo, ser um poeta violeiro, e naturalmente alguns versos e até uns forrós e mesmo uns dois sambinhas eu os pude compor. Mas a melodia mais estranha que pude imaginar foi num cordel de mal-assombro. No Auto da Catingueira de Elomar tem uma composição onde Dassanta, a musa dos violeiros, fala "das visagens e latumias" que pôde ver e ouvir, e esse cordel que segue tem uma melodia original, tanto que as rimas não obedecem ao padrão clássico da sextilha cordelista, que pode-se dizer ABABAB, e sim ABBAAB. Alucinação na Caatinga pode ser mesmo um surto onde alguém julgou ter visto e sido perseguigo pelo Senhor Diabo, ou quem sabe uma história que narre um fato real. As imagens sugeridas são possíveis, considerandoi os mitos da fé sertaneja. Na anticlímax apoteótico do cordel, o antiherói, após bagunçar o sertão em noite de ventania,, chegando a dançar com a santa padroeira de uma cidade que já teve um São João tradiconal, acaba internado num hospício em Caicó, assim se regenerando, slavando-se e se curando de uma vez só. Outro dia um psiquiatra amigo meu, antimanicomial às vezes radicaa, cismou de mudar os últimos versos para "Não vivo mais internado num hospício em Caicó". Depois que eu já saíra de lá, da cidade de Caicó, ele quis que eu me salvasse também, possivelmente, e queria que eu insinuasse que os pacientes agora deveriam se tratar nos CAPSes Quem precisa deve-se tratar em qualquer lugar, o nome também pode ser ambuilatório de saúde mental. Mas as pessoas que eu quis homenagear no cordel abaixo passaram alguns dias internadas num hopspício em Caicó.

absaam

ALUCINAÇÃO NA CAATINGA

Uma noite mal-assombrada

eu vi chegar no sertão

a Caravana do Cão,

alegre e muito animada:

Satanás dando risada

envernizava um caixão.


Eu cheguei perto do Cão

e perguntei se era pra mim;

parece qu’ele achou ruim,

pois assim me respondeu:

- "O cabra que já morreu

é melhor ficar calado!"


Eu corri desembestado

numa estrada de andar a pé.

Atrás de mim Lucifé

soltou trezentos cachorros

- macacos usando gorros

zombavam de minha fé.


Por artes de Lucifé

eu vi muita assombração,

meu corpo inda no caixão

na missa de sétimo dia,

- papagaio me seguia

repetindo extrema-unção.


Eu entrupiquei no chão

e meti a cara na lama,

minha mulher numa cama

bem servia a Satanás;

enchendo a casa de ais,

a debochar da minha fama.


- "Mulher ruim que me difama,

vou quebrar tuda careta!" -

Respondeu Mestre Capeta:

- "Pode vir, tô preparado;

já dei em corno e viado,

sou um diabo faixa-preta!"


Nessa hora Julieta

cai num pranto inominado,

sem saber para que lado

é que pendia a sua sorte;

naquela luta de morte

seu destino era traçado.


E eu com o Diabo travado

em uma luta medonha,

como quem fuma maconha

me senti desnorteado

tendo meu saco apertado

com uma força tamanha.


Aquele que um dia apanha

do Diabo jamais esquece,

o corpo todo padece

e se fica meio louco:

desde tal dia eu sou rouco,

e algo em mim apodrece.


O Satanás só fenece

tendo-me nocauteado.

Pôs Julieta de um lado

e sumiu pela estrada;

n’outra semana a coitada

veio bater-me à porta.


Encontrei-a quase morta:

as vestes todas rasgadas,

as lindas costas marcadas

por garras e por mordidas,

nas coxas feias feridas

que até hoje não sararam.


Contou-me que a estupraram

no mato meus inimigos,

mas o Diabo é nosso amigo

e só quis beijar sua mão...

Elogiou tanto o Cão,

qu’eu fiquei desconfiado.


Saí muito aperreado

e fui procurar um vigário,

que me chamou de otário

ao ouvi a minha queixa,

dizendo: - "Homem, vê se deixa

de pensar mal do Compadre!"


Disse o padre ser confrade

antigo de Satanás,

e: – “Desconfie dos mortais,

todo mundo é mentiroso:

imitações do Tinhoso,

não passam de seus iguais!"


Eu não conheci jamais

sensação igual àquela

e pulei pela janela

totalmente endiabrado

gritando: "- O padre é viado!

Aleluia, eu digo amém!"


Fiz coisas que não convêm

em poesia serem contadas,

passei noites nas estradas

como ladrão, bandoleiro;

fui galo de um puteiro,

já entrei nu em sermão.


Eu baguncei o sertão

em noites de ventania,

zombei de Santa Luzia

e chamei pra dançar forró;

hoje estou regenerado:

meus dias passo internado

num hospício em Caicó.


Antônio Adriano de Medeiros

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

à boca da noite





Meu modesto e despretensioso blog de poesia depois volta com as coisa manicomiais, como combinado.





VERSOS À BOCA DA NOITE


Sempre há versos à boca da noite.

Alguns ela os come, e esses não
verão a luz do sol,
nem tampouco serão vistos doravante:
foram tragados pelo grande buraco negro
que há em toda noite.

Outros ela simplesmente os cospe;
esses podem até ir parar
na boca de outra noite.
Tais versos andaram espalhando
que as noites costumam se beijar
(os versos nunca esconderam sua queda
pelas coisas do amor. São uns alcoviteiros!)

Uma terça parte dos versos da boca da noite
são os que se tornam poemas.
Por isso que se diz que ao alvorecer
todos os galos são bardos.

Antônio Adriano de Medeiros