domingo, 20 de maio de 2012

De quatro poemas afins


a lua em foto de oswaldo ribeiro filho, no céu de natal, mas com arbustos das dunas



Apois não é que há alguma relação entre todos os dois, ou os quatro poemas  a seguir? 

Eles - os quatro, ou os dois poemas a seguir - tratam de Deus, e do Diabo, e do Sol e da Lua, e da Mulher.

Essa Desgraçada, essa Flor do Mal, essa Deusa, essa Diaba, essa Fingida é a Terra onde medra a abominável e adorável e, quase sempre, louvável - até porque renovável - estirpe humana, e tem sido - talvez pela tempestade de sentimentos que desperta em seus filhos, que são todas as criaturas humanas, essa cambada de Filhos da Puta (e da Virgem, quase naturalmente) - sim, tem sido não totalmente sem razão, historicamente comparada a  Deus e ao Diabo, e ainda à Lua, mas mui raramente - interessante isso! - se compara a Mulher ao Sol. 

Poderia muito bem e de bom grado me perder nessa floresta de símbolos e de apelos discorrendo sobre tais mui justas correspondências, mas cansaria o leitor que decerto tem coisas muito importantes com que se preocupar, inclusive sua Maior e suas Pequenas - essas coisinhas tão adoráveis -  (sim, todas elas são suas, muito suas, demasiado suas, e sempre suas, não se esqueça disso!), mas não, vou falar só de minha coisas bem sentimentais.

O poema, os três poemas reunidos sob o título Deus e o Diabo na Terra do Céu, nasceu bi era composto só de dois sonetos, um tratndo do sol e o outro, da lua; mas um dia, aguardando com minha saudosa Mãe, lá debruçado sobre o muro da casa onde nasci a passagem da Procissão de Santa Luzia lá sobre a ponte do Açude Velho, quem, diga-me quem deu de surgir radiosa e dorada e bem grandona lá no céu? Ora, ora, mas é claro que foi a Lua. Que fez aquela boa mulher quando lhe chamei a atenção paraaquela lua tão cheia de luz? Ergueu em sua direção aquela mão direita que me segurava quando aprendi a nadar nas águas tão doces daquele velho açude hoje seco, e disse, com aquela voz tão cheia de sentimentos para meus ouvidos sempre fadados a sempre achar agradável aquela música, e falou - "A bença, Madrinha lua!", ensinando-me ali - Rogo ao Supremo que releve um  pouco se por acaso a boa mulher ali pecou! (- Besteira, Supremo: sei que você gostou!) - uma estranha adoração pagã diante da procissão que também surgia na Terra da santa cristã, uma espécie de Menina Jesus cega de tanto ver o Amor de Cristo, pois bem, uma estranha adoração pagã pelo astro, pois me ensinou que toda vez que se via a Lua Cheia em sua primeira manifestação mensal, se devia erguer a mão direita (ou decerto a esquerda para os sinistros) e dizer aquelas palavras.

Notei então que havia sido ingrato com a Lua no poema, e precisei acrescentar pois seu terceiro componente. Soubera algus dias antes de como se deu a gênese da Lua, e que a mesma está se afastando gradualmente da Terra Mãe alguns milímetros a cada ano, e ainda que foi a Lua que ordenou a órbita pontual da Terra, que até então, antes de ter sua filha e companheira Perséfone, girava meio desordenada e irresposável; e que tal ordenamente orbital que possibilitou o surgimento das Estações, e da vida - Isso é Mistério de Elêusis puro!

 Uma das muitas possíveis correspondências entre a Mulher e o Sol diz respeito ao espargimento de sangue e luz; ambos sendo imprescindíveis à nossa espécie, como os Dois, ou os Quatro.

Elementar, meu caro Washington!


absaam




O TRIBUTO DA MULHER

Qual o preço de ser a flor mais bela
dentre todas desse terráqueo jardim
e à noite brilhar mais que uma estrela
com mais graça que um anjo serafim?
Se mais velhas levam delicadeza
quando saem às ruas da cidade

– O sorriso é prenhe em gentileza;
e seus olhos são mares de saudade.
Certamente alguém que sofre tanto
tem no peito a fonte da poesia:
coração de mulher seca seu pranto
na esperança de ter uma alegria.
E sei que é alto o tributo com que arca:

o paga em sangue, e lá desde a da menarca.
  

               Antônio Adriano de Medeiros



 
DEUS E O DIABO NA TERRA DO CÉU


 


LUZ

Interessado que sou por mistérios ancestrais,
fui descobrir certa vez, num livro de Astrologia
- Velho e erudito Tratado como não se escreve mais -
as relações de alguns astros com a Fé e a Biologia.
Discorria sobre todos os corpos celestiais,
porém diferenciava a Ciência da Magia,
defendendo que a de fato são outros corpos astrais
que muito influenciam a nossa psicologia.
Dizia que Sol e Lua são bem mais determinantes
de nosso comportamento do que estrelas distantes:
o Sol é um astro vivo a espargir luz e calor,
e nenhum outro se equipara no Universo ao valor
que o astro-rei possui para a humanidade:
pois ele criou a Vida, ele é que é deus de verdade.

 


TREVAS

Não há trevas que resistam na Terra à luz do Sol,
- deus que morre e ressuscita a cada dia - :
quando ele morre, logo a Terra cobre-se com o lençol
negro do Luto, e em sinal de respeito silencia.
Sem ele é que então a Lua pode brilhar,
pois que as trevas são reino negro e frio:
toda dourada no horizonte ao despontar,
veste-se de prata quando escala o céu sombrio.
A Lua é astro parasita da luz verdadeira,
seu brilho é belo porém falso, pérfida Lua, alcoviteira
das coisas escusas, que encanta amantes e atiça
ímpetos criminais: sob seu reino o Pecado viça.
- Ó astro morto condenado ao fingimento eterno,
sei que no céu representas o Senhor do Inferno!
 



- A BÊNÇÃO, MADRINHA LUA!

Filha-irmã da poeira que ascendeu
quando a oceânica e primitiva Terra
explodiu ao chocar-se com Orfeu
- gigante da estirpe vagabunda que erra
no Cosmos à procura de uma fêmea
consistente e macia que o acolha e exploda
de prazer ao curá-lo de sua natureza boêmia -,
sei que tu és a um só tempo toda
bela e útil, pois que ordenhaste a vida
extraindo leite puro de um seio mineral
quando ordenaste a órbita da mãe perdida,
regulando dessa forma o seu ciclo sazonal.
E agora que te afastas e que de ti duvidei,
ó Lua!, te peço, com todo ardor dos fanáticos,
teu perdão e bênção, pois muito bem sei
que és a madrinha de todos os lunáticos.

 

              Antônio Adriano de Medeiros